Há praticamente uma década que a China, enquanto produtor de vinho, tem vindo a posicionar-se como um forte interveniente.
Embora não conte com grande tradição, nem sequer como consumidor, e a sua produção seja recebida com alguma desconfiança, propõe-se vencer no competitivo mundo dos vintages.
Com uma produção de aproximadamente 11 milhões de hectolitros, em 2001, a China subiu ao lugar de sexto produtor mundial de vinho. O crescimento até agora alcançado permite adivinhar um futuro promissor quanto à evolução deste sector. Em 1990, a China ocupava a décima sexta posição, e o sexto lugar coloca-a logo atrás da Argentina (15,8 milhões de hl), da Espanha (30,5 milhões de hl), da Itália (50 milhões de hl). Um grupo que, naturalmente, é liderado pela França que apresenta uma produção que ultrapassa os 53 milhões de hectolitros.
As estatísticas divulgadas na sequência do 1º Congresso Europeu dos Produtores de Vinho Independentes, revelaram que, enquanto um português consome por ano, em média, 56 litros de vinho e um francês 58 litros, o consumo médio dum chinês não chega sequer a um litro. Actualmente e até que haja alguma alteração da sua realidade, os chineses não são amantes de vinho e não têm sequer uma grande tradição no seu consumo, pois não têm o hábito de o beber às refeições, preferindo degustá-lo apenas em ocasiões de festa.
No entanto, há a registar um crescente interesse, especialmente e apenas nas grandes cidades, ficando esta alteração a dever-se à acção das campanhas publicitárias “arquitectadas” pelo Estado que evidenciam, de entre as suas qualidades, por exemplo os benefícios para a saúde. O envolvimento do governo chinês remonta a 1996, altura em que fomenta o apoio à produção de vinho local, bem como ao engarrafamento de vinho importado. Esta aposta governamental traduziu-se num desenvolvimento, do sector vitivinícola, na ordem dos 12 a 15% ao ano.
E se a este cenário de evolução e potencial, adicionar-mos os 1.300 milhões de habitantes da China, as previsões da OIV – Once Internationel de la Vigne et du Vin, que apontam a Ásia, nomeadamente a China como das regiões com maior consumo mundial de vinho, num prazo de cinco anos, apresentam-se como perfeitamente viáveis.
Triunfar no mundo dos Vintages
Ainda de acordo com dados da OIV, a cultura de vinha na China representa cerca de 360 mil hectares, sendo que em Portugal a ocupação ronda os 250 mil hectares. E ao que tudo indica, o vinho produzido na China tem vindo, gradualmente, a adaptar-se às exigências internacionais, quer em matéria de tecnologia de produção, quer em qualidade e gosto.
Os produtores chineses estão conscientes do imenso potencial que o seu mercado interno oferece e tentam impor-se no mercado internacional face a uma concorrência estrangeira cada vez mais presente. Uma transformação da realidade chinesa, para a qual muito têm contribuído alguns peritos europeus que, com o seu apoio, fizeram com que o sector vitivinícola chinês disponha, actualmente, de uma indústria capaz de produzir vinhos em grande quantidade, que dominam o mercado com marcas como Dynasty, Changyu e China Great Wall. E estes líderes de mercado, apostaram essencialmente em vinhos baratos, correntes e com uma produção em série.
Sendo que, actualmente, começa a evidenciar-se um grupo de produtores europeus que, em solo chinês, pretende produzir um vinho “capaz” de competir com os vintages estrangeiros.
A importação das mais requintadas castas e o know-how de peritos estrangeiros, faz com que muitos acreditem ser possível produzir numa geração, vinhos de qualidade superior. Conseguidos, em muitos países, após um árduo trabalho de centenas de anos. Todo o esforço está a ser concentrado em mostrar ao mundo que, para além do vinho barato e de qualidade inferior, na China podem nascer verdadeiros e surpreendentes vintages. E partir daí, basta partir à conquista do mercado mundial.
Se, actualmente, a Europa se preocupa e avança com medidas que visam controlar a "invasão" dos têxteis chineses no seu mercado, talvez deva ficar atenta a este potencial interveniente no sector competitivo dos vinhos de qualidade!
Sónia Bexiga, in Secção: Bar Aberto ARESP
Sónia Bexiga
2005/12/01
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