Reunidos no Porto, representantes de sete "zonas" de produção na Europa defenderam o regime das denominações de origem.
As denominações vinícolas começaram por ter uma base geográfica, passaram depois a ser identificadas com regiões de origem, de acordo com legislação própria, mas agora já há quem proponha uma "denominação" assente nas... marcas. É uma sugestão de carácter económico, eventualmente de multinacionais, o que começa a deixar apreensivos os produtores, desde logo os europeus.
De facto, o vinho já não seria olhado como "um produto que se orgulha das suas origens e do seu nome" - como dizia um dirigente no fórum agora realizado no Porto sobre o tema - ignorando-se, portanto, a especificidade conferida pela terra e muitos outros elementos, desde climáticos a históricos. Em resumo e para simplificar, seria fazer tábua rasa do que se denomina "terroir", que inclui o solo e outros dados marcantes de uma área (cultura, gastronomia, tradições e memórias), conferindo ao vinho características individualizantes.
As expressões que se usam nos debates deste problema não são unânimes - aparecendo como mais consensual o termo de notoriedade para designar a especial importância de um vinho - já que "qualidade", "história" e outros parecem demasiado simples e redutores. Tem notoriedade, poderia então dizer-se, o vinho que se impôs especialmente, sobre outros, ao longo dos tempos, devido a um conjunto de factores (terra, castas, técnicas, cultura envolvente, etc.) que lhe deram expansão e prestígio reconhecidos. Não é uma exclusividade da Europa, o continente que disseminou a vinha. Regiões do Novo Mundo podem, reunidas as condições, afirmar essa notoriedade.
Há, no entanto, circunstâncias concretas (desde logo porque, ao contrário da União Europeia, os produtores no Novo Mundo não têm limites de plantio) a que o representante de um organismo europeu aludiu dizendo que para esses "novos países produtores" a expressão denominação de origem é apenas um "instrumento" de trabalho, enquanto que na Europa isso significa mais: é "um objectivo". São duas filosofias, mas podem cruzar-se: há "novos países" para quem a denominação de origem, no sentido tradicional, é um conceito a manter-se e defender.
As marcas como "denominação", sendo uma questão comercial "perversa", distorce toda essa realidade. Aqui a globalização também interfere: ela joga a favor da defesa da actual denominação de origem? Poderiam invocar-se, como aconteceu no fórum, razões que revelam contradições em todo o processo. Assim, a União Europeia tem a mesma política vinícola na Europa central e na do sul? Por que razão países "não vinícolas" obtêm privilégios? Há transparência nas relações internas? As dúvidas são conhecidas e são legítimas, podia concluir quem escutava as intervenções neste fórum portuense.
Por isso, estes debates, aliás frequentes, assumem importância. Jorge Monteiro (do I. V. do Porto) acentuou o valor do conceito de notoriedade e disse que a denominação de origem continua a ser "um farol" pelo que a "entrada das marcas" neste âmbito deve ser olhada com atenção. Para um dirigente da Rioja (Espanha), as denominações de origem espelham "a confiança no produto e na região". Aquilo que justifica a denominação de origem "não tem lugar nas marcas", disse-se ainda. Por enquanto, as marcas como "denominação" servem apenas para estar atento: "que esta reunião do Porto seja o começo de uma nova atitude face ao futuro", concluía o dirigente da Rioja.
Cada região expôs os seus problemas, louvou-se a atitude dos jovens que, por razões ambientais, aceitam bem as velhas denominações de origem, perguntou-se se os refrigerantes e afins também reivindicam "denominação de origem" e debateu-se o a produção vinícola sem tratamentos químicos nocivos. "O vinho amigo do ambiente", disse-se.
Estiveram no Instituto do Vinho do Porto, representantes das seguintes regiões com notoriedade, para usar o termo consensual: Barolo (no Piemonte, região dos melhores vinhos tintos de Itália), Bordéus, Borgonha, Cognac, Jerez, Porto e Rioja. Pela OIV -Organização Internacional do Vinho esteve o seu vice-presidente Bianchi de Aguiar.
Os representantes das sete regiões visitaram também o Douro.
In Jornal de Notícias, segunda-feira, 25 de Junho de 2001
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José Gomes Bandeira - Jornal de Notícias
2001/06/27
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