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Celebridades que de alguma forma se destacaram no mundo do Vinho.
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Artes & Ofícios  
"A Tanoaria"(0000 - 0000)

"O Tanoeiro" : Operário que faz ou conserva tonéis e outras vasilhas semelhantes de madeira.
TANOARIA

Ao que parece, a industria de tanoaria teve o seu início em tempos muito distantes e para o seu desenvolvimento muito contribuíram actividades que nada tinham com a vinicultura. Não devemos esquecer que ao longo de milhares de anos não existiam muitos recipientes, para poder transportar e conservar, o azeite, a água, a gordura animal, as azeitonas etc. As viagens marítimas necessitavam de muito vasilhame para o transporte de água doce e potável, peixe seco e salgado, carne salgada, farinha, feijão e outros alimentos necessários à sobrevivência dos marinheiros que tiveram que navegar "Por mares nunca dantes navegados".
Segundo alguns historiadores, e tudo leva a crer que sim, o barril ou casco de madeira aparece no século I a. C. e foi o ponto de partida para o desenvolvimento da industria da tanoaria; que tanto beneficia a evolução dos grandes vinhos.
A qualidade da madeira empregue no fabrico de cascos tem grande importância para a conservação e evolução do vinho. As madeiras de carvalho contribuem para afinar as características organolépticas dos vinhos e das aguardentes.
Segundo o Prof. Cinccinnato da Costa, a madeira para vasilhame deve obedecer aos seguintes requisitos: 1º) ser elástica e muito seca; 2º) ter fibras uniformes; 3º) provir de árvores de meia idade mas já feitas; ser de cor uniforme; 5º) não ter veios nem ser nodosa ou galhenta.
A madeira para vasilhame deve ser cortada em pleno Inverno, época de menos seiva nas árvores, para evitar que se comuniquem ao vinho gostos e aromas de gomas, resinas, etc..
Os carvalhos com maior interesse em tanoaria são os seguintes: Carvalho Português (Quercus Lusitânica), Carvalho das Canárias (Quercus Canariensis), Carvalho Séssil (Quercus Sessiliflora), Carvalho Vermelho das Américas (Quercus Boreatis), Carvalho Roble (Quercus Robur) entre outros.
Diz o Prof. Ferreira Lapa que o Carvalho da América do Norte é o que exerce menor acção sobre os líquidos.
Estudos recentes permitem chegar as seguintes conclusões:
Existem diversos tipos de carvalho, consoante a zona de origem, no entanto, os Enólogos dão preferencia a madeira de grão mais fino, menos poroso, rico em baunilha e suave em taninos.
Sobre a madeira de carvalho usada no fabrico de cascos, os especialistas concluiram que os provenientes de Limousin, Allier, Nevers e Tronçais (zonas francesas) , Virgínia, New Orleans e Ohio (zonas dos Estados Unidos da América) e Rússia são as preferidas para o estágio dos grandes vinhos produzidos em todo o mundo.

Alguns recipientes em madeira de carvalho:
Balseiro - Grande dorna ou cuba, na qual se lançam as uvas esmagadas, para a fermentação.
Dorna - Grande vasilha de aduelas, sem tampa, destinada à pisa das uvas ou ao transporte delas para o lagar. (tipo de Balseiro pequeno invertido que se constrói tal como o próprio Balseiro).
Cuba - Vasilha grande de madeira, usada para a fermentação das uvas e recolha de vinho: equivalente a Balseiro, Dorna, Tina e Tonel.
As cubas empregadas para a fermentação dos mostos são feitas quase sempre de madeira de carvalho (fazem-se também de pedra, que se reveste interiormente de cimento, ou até só de cimento armado). Quando são de madeira, têm a forma de um tronco em cone e os arcos que mantêm as aduelas aumentam de espessura e simultaneamente de diâmetro.
Pipa - Vasilha bojuda de madeira, menor que o tonel, para vinhos e outros líquidos. Medida de volume antiga, que equivalia a 25 almudes.
Almude - Medida de capacidade para líquidos, que leva 12 canadas ou 48 quartilhos. Antiga medida de cereais (esta medida varia segundo as localidades. Modernamente, no comércio, considera-se como tal uma vasilha de capacidade de 25 litros.
Canada (s) - Antiga medida portuguesa, de capacidade igual a 4 quartilhos.
Quartilho - Quarta parte de uma canada. O moderno meio litro.
O Casco de Carvalho ou Pipa usado no Douro, para a educação (maturação) dos seus néctars e beneficio (aguardentação) tem uma capacidade que ronda os 550 litros. Nas caves de V.N. de Gaia, a pipa tem uma capacidade que varia de 580 a 630 litros e é normalmente feito com madeiras de origem francesa e americana.
Tina - Pode ter várias dimensões consoante se pretende mais ou menos "chata".

Ceferino Carrera
Sobre este tema visite: www.ovarvirtual.com

"O Escanção" no mundo do Vinho

O ESCANÇÃO - DA SUA ORIGEM ATÉ AOS TEMPOS MODERNOS

Através de inúmeras citações, em lendas, escritos antigos e textos bíblicos, conhecem-se testemunhos que comprovam a existência e nobreza do Escanção.
Embora alguns textos sejam discutíveis e a verdade dos factos nebulosa, o certo é que, quem ostenta tão justo título, não pode ignorar a nobreza e antiguidade da função.
NA MITOLOGIA E NA BÍBLIA
Na mitologia Grega encontramos a Deusa Hebe (1), filha de Júpiter (2) e de Juno (3), encarregada de servir aos Deuses, no Olimpo (4), o Néctar (5) e a Ambrósia (6), até ser, por ordem de Zeus substituída nessa tarefa por Ganimedes (7), Príncipe Troiano, filho de Trós (8) , cujo rapto Homero, poeta Grego do século IX a. C. ,descreve num dos seus poemas.
(1) Hebe deusa da Juventude, filha de Júpiter e de Juno encarregada por Júpiter de servir aos deuses o Néctar e a Ambrosia até que foi substituída por Ganimedes. Desposou Hércules, quando este tomou lugar entre os deuses.
(2) Júpiter - principal divindade dos Romanos identificado como Zeus dos Gregos, pai e senhor dos deuses; filho de Saturno (ou Cróno) e de Reia, marido de Luno (Hera), residia no Éter ou sobre o Olimpo entre os outros deuses. Presidia a todos os fenómenos celestes: estações, nuvens, tempestades, raio, etc. Quando nasceu, para o livrar de ser devorado por seu pai, Reia escondeu-se em Creta, onde foi amamentado por cabras; chegando à idade adulta, destronou Cróno, venceu os Titãs e os Gigantes, precipitando-os no Tártaro, deu o mar a seu irmão Neptuno, o Inferno a seu outro irmão Platão e guardou para si o Céu e a terra. Teve uma série de aventuras amorosas na Terra e no Céu e foi pai de numerosos deuses, semideuses e heróis, o que originou muitas questões com Hera ou Juno. Os seus atributos principais são: A Águia ,o Raio e o Ceptro e valeram-lhe os cognomes de Júpiter, Tomante, Júpiter Ferétrio, etc.
(3) Juno - divindade latina identificada com a divindade grega Hera, esposa de Júpiter, filha de Saturno e de Reia, rainha do Céu, deusa dos fenómenos celestes e do casamento.
(4) Olimpo - nome de várias montanhas da Grécia antiga. A mais famosa estava situada entre a Macedónia e a Tessália, com a altitude de 2911 m. Segundo a fábula, era residência dos deuses. Hoje é o Elymbos Vouno, sempre coberto de neve.
(5) Néctar - bebida dos deuses da fábula (bebida deliciosa).
(6) Ambrosia - substância deliciosa com que se alimentavam os deuses do Olimpo (manjar delicado) e tornava imortais a todos aqueles que a absorviam.
(7) Ganimedes - príncipe troiano, filho de Trós e da Ninfa Calírroe, Zeus, metamorfoseado em águia, arrebatou-o e levou-o para o Olimpo para substituir Hebe como escanção dos deuses.
(8) Trós - herói epónimo ( que dá ou empresta o seu nome a alguém) de Tróia, filho de Erictónio e neto de Dárdano, rei da Frígia, pai de Ganimedes. Foi o que deu o nome à cidade de Tróia, que antes se chamava Ílion.
Remontando-nos aos tempos bíblicos, vemos que o Escanção era um grande oficial, a quem, os soberanos tinham em alta estima e consideração. Na Corte de Salomão (1082-975 A. C.), no banquete que o rei ofereceu à rainha do Sabá, ficou esta deslumbrada com os manjares e a beleza dos trajes dos Escanções.
O rei Assério, Senaquerias (681 A. C.) encarregou uma vez o seu Escanção- Mor de reclamar, junto do Rei de Judá, a rendição de Jerusalém. Também Neemias, que restaurou a nacionalidade Judaica no século V a. C., tinha sido Escanção - Mor do monarca Persa Artexerxes.
No génesis "1" (40-41) é descrito o encontro, na prisão, entre o Escanção - Mor do Faraó e José do Egipto.
Na época romana, o lugar era normalmente exercido por Efebos (2) escravos ou libertos, dotados de boa aparência física e com qualidades gustativas, especializados no doseamento de vinho com mel e várias especiarias, como era hábito ao tempo.
Os patrícios (3) tinham grande consideração por estes seus servidores que, pelo vinho que serviam mantinham a reputação das suas casas.

(1) Génesis, o primeiro livro do Pentateuco de Moisés e de toda a Bíblia, em que se descrevem a criação e os primeiros tempos do mundo.
Pentateuco - os cinco livros de Moisés e que são os primeiros da Bíblia. Estes livros são : o Génesis, ou a Criação, até ao estabelecimento do Egipto; o Êxodo, ou a Saída do Egipto, o Levítico ou Livro das Prescrições Religiosas; os Números, exposição da força material do Povo; o Deuteronómico, complemento dos livros precedentes. O Pentateuco, escrito em hebreu arcaico, é o fundamento da História de Israel.
(2) Membro do colégio oficial dos Efebos entre os Atenienses; os Efebos recebiam em Atenas uma educação oficial.
(3) Patrícios - relativo à classe dos nobres entre os Romanos: Cônsul, Patrício (aristocrata)
NA EUROPA, EM ESPECIAL NA FRANÇA
Este nobre cargo existia já entre os Godos, a ele se aludindo num dos capítulos da célebre "Lei Sálica" (1).
No concílios VII, do ano 625, a XIII do ano 683, reunidos em Toledo, há referências à elevada posição que ocupavam os Escanções.

Na corte de Carlos Magno existia o Escanção - Mor, cuja autoridade era respeitada por todos. Em França, o primeiro Escanção foi instituído por Henrique I (1060), de seu nome Hugo. Porém só no reinado de S. Luís, O Escanção - Mor se tornou personagem importante na corte.
Em "Le Grand Dictionnaire Historique" do Padre Luís Moreri, (Paris, 1725) encontram-se citados 44 nomes de Escanções de França.
Na época de Luís VIII ( princípios do século XIII) o Escanção ocupava o segundo lugar na hierarquia da corte, enquanto que, cinco séculos depois, no tempo de Luís XIV, a dignidade de "Premier Echanson de France" já então um título, passou a ter um carácter honorífico .O Escanção mantinha sob a sua autoridade 24 Gentis - Homens, afim de servirem o Rei e nas cerimónias solenes.
Na Monarquia Francesa, no entanto, o cargo foi perdendo a sua alta dignidade, terminando por completo em 1702, quando era primeiro Escanção de França o Marquês de Lamermay.
A configuração heráldica do nobre cargo, era formada por duas garrafas de prata com as armas do soberano, tendo por baixo o brasão do titular.
(1) Lei Sálica (486-496) - Regras de Direito Civil, uma disposição exclui as mulheres à sucessão da Terra Sálica, a terra vinda dos antepassados.

Em todas as casas reinantes da Europa existiu este ofício, sempre exercido por personalidades de alta linhagem. Por exemplo, na Irlanda, há referência a Teobaldo Walter, que juntou a designação "Butler" (Escanção), ao seu próprio nome.
Na corte inglesa, segundo se sabe, além das prerrogativas inerentes ao cargo, os Escanções usufruíam de uma comissão sobre os vinhos importados.
EM PORTUGAL
No reinado de D. Afonso Henriques, parece ter sido seu Escanção Fernão Peres, cavaleiro que gozava do maior prestígio na corte.
Na crónica de D. Sancho II, por Frei Caetano Brandão, cita-se Martin Moniz, como Escanção - Mor d' EI- Rei. No tempo deste Rei como no de D. Afonso II, o Escanção dispunha de dois homens para o ajudarem. Costumava receber três quartas do vinho.
Foi Pêro Fernandez quem ocupou tal cargo nas cortes de D. Afonso III e de D. Dinis.
Logo que aclamado Rei, em 1385, D. João I, Mestre de Avis, proveu os ofícios da sua casa e os cargos públicos a que mais importava atender , escrevendo Fernão Lopes que, entre tais ofícios figurava o de Escanção.
Na época de D. Afonso V, João de Mello e Martim Afonso de Mello (1463) figuraram como personalidades que ocuparam este elevado cargo.
Posteriormente, muitas individualidades foram as que desempenharam o digno cargo de Escanção - Mor: Fernão de Lima, Alcaide - Mor de Guimarães ; João de Melo, Alcaide - Mor de Serpa ; Francisco Sousa e Menezes, Alcaide - Mor da Guarda.
No século XVIII, D. João V atribui, o cargo de Escanção - Mor aos Condes de Vila - Flor.
Porém ao subir ao trono D. Miguel no Séc. XIX retira-lhe o privilegio e entrega-o aos Condes de Penamacor que o sustentaram até à queda da Monarquia, em 1910.
Mais nomes se poderiam acrescentar de personalidades que ostentaram o título na Corte Portuguesa, haveria porém, o perigo de tornar este trabalho fastidioso, pelo que o termino aqui, presumindo que esta simples referência seja suficiente para justificar a antiguidade e nobreza do cargo.

BREVE REFERENCIA: A ORIGEM E FORMAÇãO DO VOCABULO "ESCANÇÃO" .
Muito embora animado da melhor vontade, escasseiam-me no entanto
os conhecimentos especiais necessários ao aprofundamento, com autoridade e saber, de um estudo etimológico.
É este, portanto, o motivo, porque apresento apenas um resumido trabalho, coligido de diversos autores, o qual, de qualquer modo, me parece suficiente para esclarecer donde deriva o termo que, actualmente, reapareceu para designar o profissional de vinhos na Indústria Hoteleira.
Numa simples consulta, verificamos que os estudiosos da etimologia não estão de acordo quanto a origem do vocábulo em questão:
-Para Atenor Nascentes (Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa) deriva do Gótico "SKANJA".
-Segundo Maurice de La Chatre (Dictionnaire Universel -1852) , provém do Céltico "ESCANZARIA ".
-O Padre Louis Moreri , refere-se a "SCANTIO" (Le Grand Dictionnaire Historique).
- E, o Cardeal Saraiva, nas suas "Obras Completas" conclui que alguns o derivam do Céltico e outros do alemão "SCHENK".
Há assim, como se vê, diversas opiniões avalizadas, mas isso não destroi, quanto a nós, o principio, que derive do latim não do clássico mas do vulgar -"SCANCIO" ou "SCANCIONARIUS" é quem deita o vinho ( mas que conhece bem a qualidade e o vinho que deita no copo) e como já foi dito SCANCIONARIA é a sala onde o vinho era distribuído. E, já o Padre Moreira das Neves num dos seus artigos refere o seguinte texto das Ordenações Afonsinas: "... se mede o vinho ou o escança aos bebedores na Taberna".
No Doutor Morais, Escanção significa aquele que reparte o vinho, enquanto que no democrático Dicionário Porto Editora, o que enche os copos ( do Germ. SKANJA).
Se é verdade que, por vezes, somos levados a pensar que se trata de simples picuinhas dum passado distante, não pode ser menos verdade que, para além do estudo técnico, é pela elevação da sua cultura geral que o profissional enriquece a sua personalidade e se valoriza socialmente, com benéficos reflexos no perfeito desempenho das suas funções.
NOS TEMPOS ACTUAIS
A função democratizou-se, quem actualmente ostenta tão honroso título não possui sangue fidalgo nem pergaminhos de nobreza. Notabiliza-se porém, pelo enriquecimento dos conhecimentos adquiridos e pelo requinte que disponha a essa bebida, tão inebriante como nobre, que é o vinho.
O Escanção é o profissional de hotelaria especializado em tudo que diz respeito ao vinho e todas as outras bebidas, desde a água ao mais sofisticado dos destilados .
O bom desempenho das suas funções, implica necessariamente possuir: boa capacidade de relacionamento com os clientes, um perfeito conhecimento do sector vitivinícola nacional e internacional, bons conhecimentos de gastronomia, um bom nível de cultura geral e um bom domínio dos principais idiomas (visto que somos um país turístico visitado por pessoas de todos os cantos do Mundo).
O bom Escanção deve estar em condições de responder a todas as perguntas dos clientes ,quer sejam de ordem técnica, histórica ou cultural.
Esta especialidade requer, portanto, para além de uma certa dose de talento, um estudo e uma aplicação constante, estar ao corrente das produções nacionais e internacionais, saber as características de cada vinho sem esquecer a qualidade das diferentes colheitas.
Deve aconselhar ,de forma subtil mas firme o cliente (sempre que seja chamado para tal) em função da refeição escolhida ou vice versa isto é, escolhendo primeiramente os vinhos e posteriormente as iguarias mais adequadas aos mesmos. Escolhido o vinho, deve a respectiva garrafa (s) ser aberta (s) à temperatura conveniente, temperatura esta que se deverá manter, afim de realçar as qualidades intrínsecas da bebida.
Uma coisa o Escanção tem de ter sempre presente no seu espírito:
Deve fazer provar e servir os vinhos e, perante os cumprimentos, manter-se modesto porque ...não é o Escanção que se cumprimenta mas, o vinho que se felicita... !
Porque os vinhos do País não são uma dádiva gratuita da natureza, não apareceram espontaneamente as vinha não foram plantadas duma só vez, mas é o trabalho paciente de várias gerações, que com respeito e dignidade criaram vinhos de uma qualidade e reputação que os tornam conhecidos em todo o Mundo; Daqui quero prestar homenagem ao trabalhador da viticultura e vinicultura e aos excelentes Enólogos que desempenham as suas funções no nosso País; porque como Escanção que sou, entendo que os Escanções devem ser ( são) os interlocutores entre quem elabora os excelentes vinhos e o consumidor; enaltecendo as qualidades naturais da bebida, assim como todo o saber que os nossos Enólogos emprestaram aos nossos vinhos.

Ceferino Carrera.
Lisboa, Junho de 2002.

A Tanoaria em Portugal in "Ovar Virtual"(0001 - 2003)

A indústria da tanoaria é por nós considerada como das menos conhecidas, dentro do tão vasto sector da madeira.
A razão pelo seu destaque deve-se ao facto desta ser representada quase exclusivamente pelo distrito de Aveiro, nomeadamente pelas freguesias de Esmoriz, Cortegaça, Maceda e Ovar do concelho de Ovar e Paramos do concelho de Espinho.
Existem outras zonas no país onde a indústria da tanoaria também ocupa o seu lugar, é o caso de, Vila Nova de Gaia, Lisboa e outras províncias com pequenas unidades artesanais, dedicadas praticamente à revenda e restauração.
Focaremos a nossa atenção na Tanoaria de Esmoriz pela sua móvel e curiosa história.
O Passado
Em tempos da guerra colonial a manutenção militar comprava quantidades enormes de vasilhame para enviar vinho para os nossos soldados no ex-ultramar.
Muitas das milhentas tanoarias então existentes trabalhavam para esse mercado.
Nas primeiras décadas deste século, o grande centro tanoeiro era Vila Nova de Gaia e a isso não era indiferente o papel na comercialização do vinho do Porto.
Como o envelhecimento do vinho, e não só, necessita de bons "cascos", Vila Nova de Gaia transformou-se num centro de tanoaria da mais alta importância.
Nessa altura, alguns esmorizenses palmilhavam os 20 km que nos separam de Gaia, para ganhar o pão de cada dia nessas tanoarias.
Pensa-se que terão sido essas pessoas que trouxeram para a sua terra a arte de tanoaria.
Instalando-se em acanhados alpendres e cobertos, trazendo consigo a força do trabalho e não mais que as ferramentas iguais às que à dezenas e centenas de anos os seus colegas de ofício usavam.
Com o aumento constante da procura e consequente produção, os primeiros "industriais" em breve se viram na necessidade de ampliar instalações. De facto a tanoaria ficará para sempre a marcar a transacção de Esmoriz dos campos e do mar para a Esmoriz das fábricas.
A indústria de Esmoriz rapidamente se transformou num centro de preferência pela excelência dos seus artistas e capacidade de trabalho.
O grande impulso da tanoaria de Esmoriz foi dado pela transformação no fabrico, que de manual passou gradualmente a maquinado, embora parcialmente, mas abrangendo as operações consideradas mais morosas. Teve neste aspecto influência decisiva o Decreto-lei nº42808 de 16/01/60, ao obrigar as industrias viradas à exportação a remodelarem as suas instalações, obedecendo a determinadas exigências.
Na aparência, este decreto- lei, pelas suas exigências deveria ser considerado como grande impulsionador da industria e consequente benéfico.
E sê-lo-ia efectivamente se em 25/09/67 não tivesse surgido a tão discutida Portaria n.º 224 que proibiu a exportação do vinho em barril. Desde logo salta à vista a disparidade entre estes dois documentos.
Em 1960 obriga-se a indústria virada à exportação a remodelar-se de alto a baixo, volvidos sete anos proíbe-se a exportação. É exactamente nessa altura que tem início a actual crise da indústria de tanoaria em geral e Esmoriz em particular.
Presente e futuro
Como se disse a indústria da tanoaria em Esmoriz começou por volta de 1910 vindo a aumentar progressivamente até 1967. Daquela data ao presente aparecem-nos crises alternadas com períodos de normalidade e prosperidade apresentando-se actualmente numa situação mais agravada pelo actual contexto político-económico.
Para além de umas quantas a laborar artesanalmente, são hoje mais de uma dezena as indústrias tanoeiras de Esmoriz e a maior delas emprega 21 pessoas.
Foi sem dúvida uma grande queda, mas as que resistiram, têm uma certa estabilidade. Provavelmente, perderão o mercado espanhol (que quer qualidade mas não se dispõe a pagar o justo) mas ele pode ser compensado com uma maior penetração noutros países da CEE.
Por outro lado, volta e meia acusam pequenas quebras ditadas por um ano de menos produção vinícola, mas, apesar disto, pode-se falar numa certa estabilidade.
Ameaças ao futuro da tanoaria esperam-se para dentro de uma década, não por falta de encomendas, mas por comércio de mão de obra. É que os tanoeiros especializados têm todos mais de 40 anos e a sua reforma não tardará enquanto que os jovens não sentem qualquer atracção para o sector.
Apesar de exigir engenho e arte, a profissão é dura e mal paga.

Curiosidades
15 passos para obter um barril
Fase de serração
1º- A madeira (de castanho), que chega em toros é cortada em abas e, depois, em aduelas.
2º- Durante cerca de meio ano, as aduelas vão permanecer em grades ou castelos para secar.
3º- Quando as aduelas "são chamadas" ao destino, procede-se à destrinca: as melhores, depois de aperfeiçoadas, são destinadas ao corpo dos barris; as outras servirão para os tampos; e um terceiro grupo das que têm nós ou estão rachadas ficam de lado.
Fase de tanoaria
- Os tampos
4º- Os tampos são feitos, unindo-se as aduelas de madeira fraca por intermédio de pregos de duas pontas. Em cada junção é colocada "palha de tábua", para vedar bem.
5º- Seguem-se duas fases de aperfeiçoamento: a de arredondamento do tampo, um trabalho a que um compasso de ferro dá as coordenadas; e a da fundagem (alisamento da madeira).
- Os arcos
6º- São feitos em ferro importado da Alemanha. Cortam-se na medida exacta e unem-se as extremidades com cravos.
7º- O corpo do barril
8º- As aduelas utilizadas para este efeito - as mais perfeitas - são cortadas nas medidas exactas e "isquidas" e enlombadas (dá-se-lhe o bojo).
- A montagem
9º-O barril é montado, não com os arcos definitivos, mas sim com os chamados "arcos de bastição", que se caracterizam por uma maior resistência, necessária para aguentar as pancadas com a malho.
10º-Num desses cucos, encaixa-se o "moço" ( faz o lugar de um homem) e a ele se irão encostar as aduelas.
11º-É com a "pareia" que se calcula o n.º de aduelas suficientes para um barril de dada dimensão.
12º-Fechado o círculo, prendem-se as aduelas com outro arco de bastição.
13º-Segue-se o espargimento ( os barris vão ao fogareiro para apertar os arcos).
14º-Trocam-se os arcos de bastição pelos definitivos, mas antes da colocação dos últimos, aplicam-se os tampos, com a ajuda de um "alheta".
14º-Veda-se o barril com parafina e barro.

in "www.ovarvirtual.com"

Firmas & Marcas  
"Ramos Pinto" Adriano Ramos Pinto (Vinhos), S. A.(1880 - 2002)

A "Adriano", foi fundada em 1880 pelo Adriano Ramos Pinto. Um pouco mais tarde seu irmão António associa-se à empresa, sendo determinante para o seu desenvolvimento.
Graças à excelente qualidade dos seus vinhos, a firma é reconhecida no mercado brasileiro. Seleccionou um tipo de vinho de qualidade bem superior ao nível do exportado e deu-lhe uma embalagem com uma apresentação cuidada, desde a cápsula à caixa de madeira. Este vinho --o Adriano -- tinha um preço duas vezes superior à média do mercado. Com uma visão comercial precursora no sector do vinho do Porto, acompanhou a promoção da sua marca com um bem planeado marketing baseado na qualidade dos seus vinhos, assim como, numa publicidade através de cartazes de grande nível artístico, obras dos mais famosos artistas do início do século: Leonetto Cappiello, Matteo da Angelo Rossotti, L. Metlicovitz, René Vincent e entre nós, António Carneiro, Ernesto Condeixa e Roque Gameiro.
Foi João de Almeida que, com o seu tio, Jorge Ramos, identificou pela primeira vez as principais castas varietais do vinho do Porto.
Os actuais dirigentes, entre os quais se encontram alguns dos descendentes de ARP, asseguram a perenidade da Firma afamada pelo estilo característico dos seus Vinhos do Porto. Acompanhando a Arte apoia várias acções culturais: música, literatura e artes plásticas. Na música destacam-se o Concerto da Primavera que se realiza anualmente nas suas caves e o patrocínio da prestigiosa série de concertos anuais no Maksoud Plaza de São Paulo.
ARP possui cerca de 175 ha de vinha plantados, repartidos por 4 quintas:
Quinta do Bom Retiro, Quinta da Urtiga, Quinta dos Bons Ares e Quinta de Ervamoira.
Esta casa foi pioneira na área da vitivinicultura onde, fruto de investigação e de estudos precursores na selecção das castas e das inovadoras plantações verticais, soluções estas, hoje adoptadas na generalidade.
Cerca de 20 por cento dos vinhos são ainda vinificados em lagares, pois consideram que esta ainda é a melhor forma de extrair o máximo de aromas e de cor através da maceração pelicular.
A sede da ARP, construída em 1708, localiza-se em Gaia, na Avenida Ramos Pinto, tendo como companhia o Rio Douro. Os seus armazéns e garrafeiras situam-se na Calçada das Freiras.
Desde 1990, a companhia é controlada pela casa francesa Louis Roederer.
Hoje ainda trabalham quatro bisnetos do irmão fundador e o Administrador João Nicolau de Almeida.

Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do A. D.(1756 - 2002)

Foi no dia 10 de Setembro de 1756, por Alvará Régio de El-Rei D. José I e sob os auspícios do seu Primeiro Ministro, Sebastião José de Carvalho e Mello, Marquês de Pombal, que foi constituída a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, também denominada de Real Companhia Velha.
Esta companhia era formada pelos principais lavradores do Alto-Douro e Homens Bons da Cidade do Porto. À Companhia foi confiada a missão de sustentar a cultura das vinhas, conservar a produção delas na sua pureza natural, em benefício da Lavoura, do Comércio e da Saúde Pública. Parte da história desta companhia é descrita neste Guia, na breve história do Vinho do Porto. No entanto, não queria deixar de focar mais alguns dados importantes na história desta tão importante casa.
Em 1781, a Real Companhia Velha leva os seus vinhos até Catarina da Rússia, através de grandes carregamentos em navios fretados para o efeito, iniciando assim a navegação portuguesa para portos do Báltico e as permutas comerciais com aquele país.
Durante as Invasões Francesas (1809), as tropas de Napoleão requisitaram os vinhos da RCV, que assim faziam parte da ração dos soldados Franceses. Quase ao mesmo tempo (1811), Lord Wellington e as suas tropas consumiam também os vinhos da RCV, destacando-se um fornecimento de 300 pipas, feito através dos seus armazéns da Régua, ao exército de então estacionado em Lamego. Durante os séculos XVIII e XIX, grandes esquadras de navios carregados com Vinho do Porto da Real Companhia Velha partiram para o Brasil, onde a Companhia detinha o exclusivo do fornecimento dos vinhos do Alto-Douro. Nos anos de 1851/52, a Companhia possuía entrepostos comerciais para os seus vinhos em quase todos os portos do mundo, sob a protecção das missões diplomáticas portuguesas.
Para fazer face a esta enorme expansão, a Companhia teve de mandar construir diversas fragatas de guerra para proteger a navegação portuguesa dos piratas argelinos que vagueavam ao largo da costa portuguesa. Em 1762, a Companhia cria no Porto a Aula de Náutica, mais tarde convertida na Real Academia de Comércio e Marinha, em 1803. Mais tarde esta Academia foi transformada na Academia Politécnica do Porto, que está na origem da actual Universidade do Porto. Entre 1789 e 1791, a Companhia procedeu a uma série de trabalhos de melhoramento da barra do Douro. No Douro mandou cortar os rochedos que formavam o Cachão da Valeira; este trabalho começou em 1780 e terminou em 1792, vindo assim regularizar o curso do Rio Douro, tornando-o navegável até Barca d` Alva. Por Alvará Régio de 1760, a RCV, foi autorizada a montar destilarias para a produção de aguardente vínica, nas províncias da Beira, Minho e Trás-os-Montes. Em 1855, foram destiladas 85.658 pipas, tendo produzido 8.087 pipas de aguardente. Para sustentar a cultura das vinhas, a Companhia emprestou somas importantes aos lavradores necessitados, permitindo, assim, uma melhoria dos preços dos vinhos e, por conseguinte, uma significativa melhoria no rendimento dos lavradores. Fruto dessa acção, chamavam à Companhia o Banco do Douro Esta empresa foi adquirida em 1960, bem como a Real Vinícola em 1962, por Manuel da Silva Reis, mantendo-se nesta família até aos dias de hoje.

Autor: Abílio Forrester Zamith
In Guia do Vinho do Porto, Chaves Ferreira - Publicações, S.A.

História  
Antão de Carvalho(1871 - 1948)

Em 1931, a lavoura duriense passa mais uma vez por momentos difíceis, não conseguindo controlar o preço do seu vinho, que cai constantemente, e esperando-se a todo o momento uma situação de ruptura.
Era preciso criar um organismo associativo que não só defendesse o vinho e a região, mas também os promovesse.
Aconteceu então que um conjunto de ações foram levadas a cabo por homens destemidos e de muito mérito, como: Carlos Amorim, Joaquim Carvalhais, Dr. Bonifácio da Costa, Dr. Antão Fernandes de Carvalho, Eng. Artur Castilho, estes dois últimos com a responsabilidade de fazerem o "Estatuto do Douro", que viria a ser alterado pelo governo.
Fez-se então um contraprojecto, mais uma vez não só da responsabilidade do Dr. Antão Fernandes de Carvalho, como também do Dr. Camilo Bernardes Pereira e do Eng. José da Costa Lima, e que viria a ser aceite.
E foi assim que, em 19 de Novembro de 1932, o governo, aceitando esse novo projeto do Estatuto do Douro, fez publicar o decreto-lei nº 21883 criando a Federação Sindical dos Viticultores da Região do Douro, hoje Casa do Douro.
A Casa do Douro e esta região demarcada muito devem a homens como o Dr. Antão Fernandes de Carvalho, que com o seu saber, carácter e influência muito contribuíram para a sua criação.
Nasceu no ano de 1871, no lugar de Vila Seca, freguesia de Poiares e concelho de Peso da Régua.
Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e ocupou lugares de destaque como o de deputado, Presidente da Comissão de Viticultura da Região do Douro, Presidente da Câmara do Peso da Régua, Secretário do Estado do Comércio, sub-Secretário do Estado da Presidência, Ministro da Agricultura, do Comércio e Pescas e outros cargos que seria fastidioso aqui referir.
Veio a falecer em 1948.
Morreu o homem, mas ficou a obra...bem-haja.
Citando Carlos Amorim: "A sua figura máscula, hercúlea, bem vincada, à beira do grande edifício, é como que uma sentinela, sempre firme no seu posto, a vigiar e a guardar."
In Villa Regula - Março de 2000 - texto de Marco Aurélio Peixoto

António do Lago Cerqueira(1880 - 1945)

Dr. António do Lago Cerqueira nasceu na Casa da Calçada (Cepelos), em 11 de Outubro de 1880. Formou-se em Filosofia pela Universidade de Coimbra.
Com grande actividade política, foi figura de destaque no partido democrático chefiado pelo Dr. Afonso Costa. Ocupou durante alguns anos na Câmara Municipal de Amarante, o lugar de Presidente, onde deixou algumas obras de vulto, das quais se destaca a construção da Central no rio Olo que serviu para que pela primeira vez chegasse a electricidade à Vila de Amarante. Exerceu também altos cargos no poder Nacional, como o de Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ministro do Trabalho.
Por questões políticas teve de se ausentar para França. Em Paris, frequentou o curso de Viticultura e Vinificação no Institut National Agronomique. Os conhecimentos adquiridos na área da vitivinicultura permitiram-lhe introduzir melhoramentos nas suas propriedades, de tal modo que fundou as Caves da Calçada, que espalharam por todo o território nacional e internacional os seus excelentes vinhos e derivados.
Em sua homenagem foi erigido um busto em bronze na Avenida General Silveira, e foi dado o seu nome à Escola Profissional de Vitivinicultura de Amarante, onde se faz formação no âmbito da vitivinicultura, análises, gestão e outras especialidades.
(Amarante - Uma ponte entre a história e a Natureza, Anégia Editores, 97

VINHO VERDE DE UVAS MADURAS !!!

Na época, António do Lago Cerqueira foi o maior vinicultor da região de Amarante, pela expansão nacional e internacional da sua casa agrícola, - um presidente da câmara com o sentido moderno de gestão e do projectos avançados para a desenvolvimento, - um político democrático sempre coerente com os seus princípios, pelos quais sofreu a prisão, a enxovia e o exílio: em 1918, na ditadura de Sidónio Pais, em 1919, na Monarquia do Norte, também chamada Traulitânia, e no regime da Ditadura, de 1927 até a década de 40 - em que, já sexagenário, autorizaram o regresso à Pátria.
Além de presidente da Câmara de Amarante, foi membro do Directório do Partido Democrático, deputado, ministro do Negócios Estrangeiros, em dois ministérios, e ministro do Trabalho, durante o período de 1910 a 1926, isto é, durante 15 anos, tanto durou a 1ª República e a sua acção política.
Nasceu em 11 de Outubro de1880 - aceitemos este ano, afastando a versão que refere o anterior - e teve um irmão e uma irmã.
Foi ali na Casa da Calçada - onde também faleceu em 28 de Outubro de 1945, meses depois da vitória dos Aliados, na II Grande Guerra Mundial, satisfação que pode ainda levar para o túmulo.
A guarita de pedra, vários motivos arquitectónicos e os merlões, vulgarmente chamados ameias - os especialistas chamam ameias apenas aos espaços livres entre merlões - identificam junto da ponte velha do séc. XVIII, a Casa da Calçada, que é das mais grandiosas da cidade e que, ultimamente, sofreu ampliações para efeitos de um majestoso hotel de turismo.
Provindo da aristocracia rural amarantina, da qual divergiu com os evidentes atritos, licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Coimbra, diplomando-se ainda, mais tarde, em França, num instituto de Agronomia. Mas não usava títulos universitários nos cartões de visita.
Só por baixo do nome imprima em francês "ancien ministre", antigo ministro da República, quando vivia exilado em França.
Também nos documentos oficiais, a seguir ao nome de registo civil, escrevia só "proprietário viticultor".
Todo o seu trato ou relacionamento com as diversas classes sociais era de impecável educação e elegância.
Por invulgar nas pessoas de berço doirado, referimos ainda que na rua por mais estranho que pareça, conhecia um a um os habitantes. De boa memória visual e fisionómica, mesmo na gente mais humilde, conhecia os clãs e parentescos, o que decerto viria a influir nos seus êxitos eleitorais.
Quando estudante em Coimbra, portanto no virar do séc. XIX para o XX, conviveu com jovens entusiasmados pelos ideais republicanos, de que, apesar da fortuna pessoal, nunca se afastou e pelas quais sofreu mais doze anos de exílio, com os evidentes prejuízos em todos os sentidos. Antigamente não era raro empobrecerem - às vezes até à miséria - os que se devotavam à política. Agora, já prevenidos, parece que não chegam a esse extremo...
Como se pode depreender do volume "O Livro do Dr. Assis", de Alberto Costa (Ex-Pad Zé), a casa que ocupava em Coimbra era de grande fausto mas também de grande generosidade.
Um mundo de referências lendárias envolveu Lago Cerqueira:
Os galgos russos brancos, com correntes de prata - o estojo de toalete masculina mais completo da Europa (quando então havia muitos reis e príncipes) - salões de banhos turcos e árabes - os avisos antes da busca domiciliária da polícia - o anel brasonado no dedo democrático - o chefe da estação ferroviária só a dar partida quando chegasse - a bandeira hasteada, assinalando a presença do senhor na quinta, com o seu castelinho apócrifo e decorativo, como são todos os panos de pedra ameada dentro da nossa cidade.
Todo este aspecto pomposo e de refinamento faz lembrar o Jacinto do romance "A Cidade e as Serras", de Eça.
Temos de colocar Lago Cerqueira no espírito "fin-de-siècle", na transição da Monarquia para a República, coisa que era impossível ser rápida, se quisermos entender bem a época.
Ao mesmo tempo, entretanto, germinavam os mais puros ideais de emancipação e justiça social, uma devoção ecologista e estética pela árvore, com os seus rituais, que Salazar, depois aboliu, uma exaltação do trabalho, com um ministério, que a Ditadura também eliminou. Exaltava-se o trabalho como força de produção de riqueza e da dignificação do homem. Decerto que eram ideias um tanto mitificadas mas agora, que se celebra a especulação, as mil maneiras de ganhar sem suor, não parece que tenhamos progredido.
Os adversários políticos, diante do seus êxitos eleitorais, acusavam-no de caciquismo e favoritismo nos empregos que, a vários níveis, conseguia, organizando obras de toda a espécie. O bom empregador é sempre compensado em votos nas zonas de grandes carências.
A verdade porém é que os adversários, estatisticamente, tinham vantagem, podiam dominar a maioria do eleitorado, com todos os seus caseiros, trabalhadores, afilhados e dependentes.
Por outro lado, os adversários não poderiam ficar em casa, quando toda a gente o vitoriava na rua, pela inauguração da luz, pelo regresso do exílio da Traulitânia, enfim nas manifestações puramente cívicas e apartidárias, como em Abril de 1918, 2 de Outubro de 1919 ou 4 de Dezembro de 1920.
Contraste flagrante este! Se o general Carmona, presidente da República, passava por Amarante, de visita anunciada, praticamente só elementos da Câmara soltavam frouxos vivas.
Quando, na década 40, regressou o exilado Lago Cerqueira, se passava a pé pela rua, não mentiremos se afirmarmos que toda a gente - homens, mulheres e crianças - o saudavam, num contagiante sinal de respeito, a que respondia a sorrir, com largos movimentos do chapéu.
Sem excepção, parece, os adversários políticos coincidiam num ponto: Lago Cerqueira era um homem de trabalho e de acção - o que não exclui a sua formação estética, tanto no sentido moral, como nos pormenores das coisas que fazia. Vejam-se os rótulos das garrafas da sua casa agrícola "Les Vins du Portugal", "Os Vinhos de Portugal".
Toda a sua acção porém, administrando a Casa da Calçada ou a Câmara de Amarante ou como político, é o inverso ou está em contradição com os boatos e lendas e os reais, verdadeiros, exteriores de pompa e grandiosidade.
Não vamos aqui aprofundar estes aspectos contraditórios da personalidade do nosso conterrâneo, porque é na acção que vamos encontrar, não nos exteriores ou na obra escrita, como em Pascoaes ou António Cândido.
De escrito pela sua mão, Lago Cerqueira deixaria apenas alguns artigos em revista francesas e a sua tese no Instituto francês de Agronomia, "Les Vins du Portugal", "Os Vinho de Portugal", publicada em volume, no ano de 1929, de três mil exemplares, com gravuras, de largas críticas à política vinícola de então.
Do seu trabalho sob o título "A Situação da Lavoira, especialmente da Viticultura", que em França teria escrito, dentro de um plano geral dos exilados políticos para o restabelecimento democrático de Portugal, ao que se sabe, não foram encontrados vestígios.
Quando em Braga estalou o 28 de Maio de 1926, cujo cariz foi inicialmente ambíguo, antes de se declarar Ditadura da Direita, Lago Cerqueira era Deputado. Três dias depois do golpe militar de Gomes da Costa (que, a seguir, ele próprio, foi exilado pela Ditadura), portanto no dia 31 de Maio, reuniu ainda o Parlamento mas sem "quorum". Só responderam 38 deputados. Dada por encerrada a sessão, ouviu-se um brado: Viva a República! Era Lago Cerqueira. E só 48 anos depois, com o 25 de Abril de 1974, regressaria o regime democrático que temos hoje. O facto é que Lago Cerqueira estava presente nos grandes momentos: de perigo e derrota, no Parlamento, em 31 de Maio de 1926, - na revolução anti-ditadura do 3 de Fevereiro de 1927 - como na implantação da República em Amarante, na tarde do dia 6 de Outubro de 1910.
Como é sabido, especialmente pela data do feriado nacional, a bandeira verde e vermelha, que substitui a azul e branca da Monarquia, foi hasteada na Câmara de Lisboa no dia 5 de Outubro de 1910. Demorou portanto alguns dias até que o regime republicano fosse simbolizado pelas bandeiras ao longo do país.
Com as dificuldades de comunicação de então, em Amarante, foi na tarde do dia 6, um dia depois. Era um grupo de amarantinos e lá estava também Lago Cerqueira, ao içar da flâmula verde e vermelha na Câmara Municipal.
Como presidente da Câmara de Amarante, com uma edilidade em espírito de equipe ou colegialidade, realizou importantes melhoramentos públicos. Falaremos de alguns concluídos e de outros que, apesar da fase adiantada, ficaram definitivamente suspensos ou abandonados pelo 28 de Maio.
Referimos já os Serviços Florestais, sede da 6ª Administração.
Um outro empreendimento importante foi toda a estrutura da Hidreléctrica do Olo, cujas obras correram de 1914 a 1917, para fornecimento de energia ao concelho, que hoje já não se aproveita por ser de 110 volts, como era de estilo há 70 anos, e agora generalizada para 220.
Desta obra ficou um álbum com fotografias, esclarecendo todo o desenvolvimento das obras. Estávamos em plena I Grande Guerra, que nos envolveu não só em França, como em África, nas colónias de então. Época difícil para uma Hidroeléctrica. Era preciso vencer fortes obstáculos, que iam dos problemas técnicos aos financeiros, passando pela opinião obstrucionista dos grande proprietários.
Não era só um sentido muito agudo de contabilidade e previsão. Em Lago Cerqueira confluía ainda uma personalidade forte mas comunicativa, um perfil de gestor progressista, e uma crença arreigada nos homens e nas suas possibilidades.
Outras realização foi a chamada Escola Primária Superior, de que vários amarantinos beneficiaram, já que havia sido extinto o Liceu de Amarante, em que estudou Pascoaes. Depois do 28 de Maio foi fechada.
Outra carência de premente necessidade era, então, o abastecimentos domiciliário de água. Mas havia prospecções, pesquisas, canalizações - de que restam as infra-estruturas - atravessando terrenos, o que envolvia forte oposição dos proprietários rurais. Suspensos os trabalhos pela Ditadura, Amarante teve de esperar largos anos por este serviço público.
Outro empreendimento de grande alcance para o desenvolvimento de Amarante era a instalação da Escola Agrícola, que os amarantinos ambicionavam a sediar na Quinta da Cerca de Baixo, em que Lago Cerqueira se empenhou movendo obstáculos.
Mais uma vez a Ditadura o fez abortar e para sempre. Até o Regimento de Artilharia 4, instalado no Campo da Feira, foi transferido, a população bolchevizava a tropa, no dizer de um general. Mas outras obras e benefícios, que seria cansativo enumerar, se verificam e foram concluídos: no mercado de então, na Misericórdia, nos Correios, caminhos rurais, acessos à estação do caminho de ferro, ampliação do cemitério... É hoje ainda opinião generalizada que o nosso vinho verde não dá para envelhecer, que dois anos em garrafa será o máximo.
Apontam-se razões do teor alcoólico, 7 a 8 graus, e que as qualidades organolépticas, as suas delicadezas de sabor, perfume e cor, se perdem rapidamente no tempo. Mas mais que isso, haverá motivos de outra ordem.
Não só o minifúndio e o caseiro, como o proprietário de quintas, dificilmente poderão aguentar, por 10 ou mesmo 5 anos, a suspensão do fluxo financeiro anual, proveniente do vinho, base económica da exploração agrícola da nossa região. Fundamentalmente, havia e há, portanto, uma espécie de mito, a cobrir razões financeiras e de rotina.
Lago Cerqueira homem de acção e empreendimentos, estudou, comparou e, em luta contra a rotina, com os meios da época, produziu marcas de vinho verde, como "Casa da Calçada", "Amarante" e "Cuvée de Choix" que resistiam ao tempo e envelheciam. Exportou para o Brasil e a própria França, passando a ser fornecedor oficial das Casas Civis das duas Presidências da República. Em Paris e não havia, então, as centenas de milhares dos emigrantes portugueses de hoje, abriu uma frequentada adega de vinho verde amarantino. Não se limitava só ao vinho. Tinha aguardentes de marcas muitos apreciadas, como "Aguardente Velha" ou "Tipo Fine Champagne". O conhaque, para o qual concorria a maçã camoesa tão tradicional, agora desaparecida do circuito de venda, rivalizava com os célebres conhaques franceses. Desde rótulo, de qualidade e requinte, - o registo internacional perpétuo na Suíça, das marcas comerciais para os seus tintos, brancos e claretes, - circuitos de venda e expansão, - tudo era cuidadosamente estudado, mesmo no exílio, longe da terra. Naturalmente que tinha colaboradores de qualidade e confiança pois não há general, sozinho, que ganhe qualquer batalha.
Em qualquer empresa uma das grandes virtudes do gestor é precisamente preparar, escolher, dar meio e condições, fazer participar, colaboradores e empregados. Os proprietários de rotina diziam com ironia que, antes da pisa, mandava os lagareiros tomar banho de corpo inteiro e que só colhia as uvas lá para o Natal... Exageravam decerto, mas vinho verde de uvas maduras - era o lema de Largo Cerqueira. Não era dos produtores que não sabem as castas que têm nos choupos, bardos ou ramadas. Há 60 anos, como se verifica em "Les Vins du Portugal", "Os Vinho de Portugal", criticava com a sua experiência pessoal a legislação em vigor, dava indicações muito precisas sobre enxertias, castas mais indicadas para a boa qualidade, referia testes, análises químicas que praticava como enólogo, com experiência diversificada em países da Europa.
Recentemente decreta-se e tomam-se medidas para preservar a qualidade dos vinhos verdes, que na nossa região é específico, é diferente. Quando é mesmo de Amarante, não se confunde, não admite mistificações.
Lago Cerqueira há 60 anos estudava o assunto, analisava, tirava conclusões, possivelmente não coincidentes com as preconizadas hoje. (Naturalmente não caberá aqui discutir, tal assunto.)
Para a genuinidade e expansão do vinho verde e seus derivados, redução de custos e circuito comercial de confiança, Lago Cerqueira, na década 20, preconizava, já então, cooperativas vinícolas bem organizadas.
Algum dia há-de acontecer e naturalmente uma das virtudes da tão falada Regionalização será também o levantamento dos valores regionais.
E não só na área das Letras, Artes e Ciências. Certamente no capítulo dos homens de acção na vinicultura e progresso de Amarante, o nome de António do Lago Cerqueira será sem rebuços, nem complexos, levantado como um dos seus maiores expoentes.
Manuel Amaral - Escritor Amarantino

Dom Dinis "O Lavrador"(1279 - 1325)

A importância do Vinho entre os produtores agrícolas portugueses é anterior à própria nacionalidade. Ao contrário do que se passou com os cereais, foi uma cultura em constante expansão e muitos dos solos arroteados de novo foram ocupados por vinhas.
A acção dos mercadores, adquirindo nos mercados locais o Vinho que traziam à cidade e que em parte exportavam, foi um factor que directamente impulsionou o crescimento da produção vinícola, que, aliás, tinha já as suas raízes na época romana.
O rei D. Dinis instala uma política estável e centralizadora que se manterá à época de D. Fernando. Estabelece a paz com a "Concordata dos 40 artigos" (1289) que regula conflitos sem abdicar da sua soberania. Estabilidade monetária, com os lavramentos em ouro, prata e bolhão de D.Dinis.
Fomenta-se e expandem-se excepcionalmente as feiras locais. As actividades agro-pecuárias crescem significativamente. Às lavouras fundamentais dos cereais, Vinho e azeite acrescem a produção frutícola e a apicultura.
A Produção do Vinho. Há notícias do cultivo da vinha em todas as regiões do país. As informações são particularmente numerosas nos costumes da Guarda. Segundo eles, era proibído introduzir na vila Vinho de outras regiões, sob pena da mercadoria, dos animais que a transportassem e da multa de 100 maravedis. O morador que tivesse em sua casa Vinho de fora e não participasse aos alcaides pagava igualmente multa e era expulso por traidor. Os comerciantes que atravessassem a região com Vinho de fora não podiam pernoitar em povoados nem passar a menos de uma légua da Guarda. Todas estas providências visavam estimular a produção do Vinho em regiões do interior, numa época em que as vinhas já eram muito abundantes no litoral, em especial na região de Coimbra.
Profundas transformações em muitos dominíos; da agricultura à cultura, do social ao artístico. A Universidade de Lisboa, o Cancioneiro da Ajuda, que reúne centenas de poesias galaico-portuguesas dos Séculos XII e XIII. ( Martin Codex, autor e trovador, -- hoje nome de marca de Alvarinho galego).

José Relvas - O Vitivinicultor (1858 - 1929)

Herdeiro de uma vasta e opulenta casa agrícola, José de Mascarenhas Relvas nutriu, desde a juventude, grande interesse pela vitivinicultura. Podemos mesmo asseverar que, juntamente com a motivação para a arte e a causa pública, esta terá sido uma das suas actividades mais dilectas, desenvolvida com o afinco e a argúcia que caracterizaram todos os empreendimentos a que se entregou. Uma célebre caricatura da autoria de Malhoa alude precisamente à paixão com que rodeou tudo o que dizia respeito à exploração do vinho.
Tendo fixado a residência na Quinta dos Patudos ainda na década de 1880, José Relvas reorganizou, a partir de Alpiarça, os diferentes sectores da actividade agrícola e industrial que seu pai, em desespero de causa, lhe confiara. A situação não era fácil, pois a irregular administração de Carlos Relvas conduzira a casa a um crónico deficit que punha em causa a sobrevivência, face aos credores, das propriedades mais importantes. Pouco a pouco, José Relvas foi liquidando os débitos e equilibrando as despesas e as receitas. A sua visão de lavrador esclarecido cedo lhe mostrou que a cultura extensiva da vinha deveria constituir, agora mais do que nunca, o principal esteio da empresa familiar, mas que importava complementá-la com a cuidadosa selecção das castas e a melhoria das condições de vinificação e armazenagem, sem descurar o calcanhar de Aquiles dos lavradores do Ribatejo: uma exploração comercial mais moderna, organizada de harmonia com as necessidades de um mercado em franca expansão.
Familiarizado com os avanços da lavoura europeia e americana, introduziu na Quinta dos Patudos novas técnicas agrícolas, não descurando o bem-estar e a protecção social das muitas dezenas de trabalhadores a seu cargo. Preocupou-se também com a produção de vinhos de qualidade padronizada, de modo a fidelizar uma clientela sempre volúvel. Ao mesmo tempo, dedicou-se ao fomento do associativismo agrário, ante-câmara da futura actividade política. Mas o seu rasgo de génio consistiu na capacidade de, através da Adega Regional do Ribatejo, idealizar um sistema eficiente para o abastecimento directo de Lisboa com os néctares de Alpiarça, dispensando todo uma gama de intermediários que crucificavam, com comissões excessivas, os proprietários ribatejanos.
Esta inovação veio a revelar-se tão ajustada que, nos derradeiros anos do regime monárquico, a produção da Quinta dos Patudos e suas anexas aumentou enormemente e passou a ter os excedentes dirigidos para os mercados africano e brasileiro, de onde chegavam divisas fortes. Foi graças à noção empresarial do negócio do vinho em larga escala, defendida com energia por José Relvas e outros grandes lavradores de Alpiarça, Almeirim e Chamusca junto dos poderes centrais, em nome da lavoura ribatejana, que Portugal incrementou de modo substancial as suas exportações. Foram também os proventos obtidos com a moderna vitivinicultura que permitiram, em grande parte, a construção do solar dos Patudos e a aquisição da sua magnífica (e de certo modo única) colecção de obras de arte.
José António Falcão,
Director da Casa-Museu dos Patudos

Louis Pasteur(1822 - 1895)