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Celebridades que de alguma forma se destacaram no mundo do Vinho.
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"A Tanoaria"(0000 - 0000)
"O Tanoeiro" : Operário que faz ou conserva tonéis e outras vasilhas semelhantes de madeira. TANOARIA
Ao que parece, a industria de tanoaria teve o seu início em tempos muito distantes e para o seu desenvolvimento muito contribuíram actividades que nada tinham com a vinicultura. Não devemos esquecer que ao longo de milhares de anos não existiam muitos recipientes, para poder transportar e conservar, o azeite, a água, a gordura animal, as azeitonas etc. As viagens marítimas necessitavam de muito vasilhame para o transporte de água doce e potável, peixe seco e salgado, carne salgada, farinha, feijão e outros alimentos necessários à sobrevivência dos marinheiros que tiveram que navegar "Por mares nunca dantes navegados". Segundo alguns historiadores, e tudo leva a crer que sim, o barril ou casco de madeira aparece no século I a. C. e foi o ponto de partida para o desenvolvimento da industria da tanoaria; que tanto beneficia a evolução dos grandes vinhos. A qualidade da madeira empregue no fabrico de cascos tem grande importância para a conservação e evolução do vinho. As madeiras de carvalho contribuem para afinar as características organolépticas dos vinhos e das aguardentes. Segundo o Prof. Cinccinnato da Costa, a madeira para vasilhame deve obedecer aos seguintes requisitos: 1º) ser elástica e muito seca; 2º) ter fibras uniformes; 3º) provir de árvores de meia idade mas já feitas; ser de cor uniforme; 5º) não ter veios nem ser nodosa ou galhenta. A madeira para vasilhame deve ser cortada em pleno Inverno, época de menos seiva nas árvores, para evitar que se comuniquem ao vinho gostos e aromas de gomas, resinas, etc.. Os carvalhos com maior interesse em tanoaria são os seguintes: Carvalho Português (Quercus Lusitânica), Carvalho das Canárias (Quercus Canariensis), Carvalho Séssil (Quercus Sessiliflora), Carvalho Vermelho das Américas (Quercus Boreatis), Carvalho Roble (Quercus Robur) entre outros. Diz o Prof. Ferreira Lapa que o Carvalho da América do Norte é o que exerce menor acção sobre os líquidos. Estudos recentes permitem chegar as seguintes conclusões: Existem diversos tipos de carvalho, consoante a zona de origem, no entanto, os Enólogos dão preferencia a madeira de grão mais fino, menos poroso, rico em baunilha e suave em taninos. Sobre a madeira de carvalho usada no fabrico de cascos, os especialistas concluiram que os provenientes de Limousin, Allier, Nevers e Tronçais (zonas francesas) , Virgínia, New Orleans e Ohio (zonas dos Estados Unidos da América) e Rússia são as preferidas para o estágio dos grandes vinhos produzidos em todo o mundo.
Alguns recipientes em madeira de carvalho: Balseiro - Grande dorna ou cuba, na qual se lançam as uvas esmagadas, para a fermentação. Dorna - Grande vasilha de aduelas, sem tampa, destinada à pisa das uvas ou ao transporte delas para o lagar. (tipo de Balseiro pequeno invertido que se constrói tal como o próprio Balseiro). Cuba - Vasilha grande de madeira, usada para a fermentação das uvas e recolha de vinho: equivalente a Balseiro, Dorna, Tina e Tonel. As cubas empregadas para a fermentação dos mostos são feitas quase sempre de madeira de carvalho (fazem-se também de pedra, que se reveste interiormente de cimento, ou até só de cimento armado). Quando são de madeira, têm a forma de um tronco em cone e os arcos que mantêm as aduelas aumentam de espessura e simultaneamente de diâmetro. Pipa - Vasilha bojuda de madeira, menor que o tonel, para vinhos e outros líquidos. Medida de volume antiga, que equivalia a 25 almudes. Almude - Medida de capacidade para líquidos, que leva 12 canadas ou 48 quartilhos. Antiga medida de cereais (esta medida varia segundo as localidades. Modernamente, no comércio, considera-se como tal uma vasilha de capacidade de 25 litros. Canada (s) - Antiga medida portuguesa, de capacidade igual a 4 quartilhos. Quartilho - Quarta parte de uma canada. O moderno meio litro. O Casco de Carvalho ou Pipa usado no Douro, para a educação (maturação) dos seus néctars e beneficio (aguardentação) tem uma capacidade que ronda os 550 litros. Nas caves de V.N. de Gaia, a pipa tem uma capacidade que varia de 580 a 630 litros e é normalmente feito com madeiras de origem francesa e americana. Tina - Pode ter várias dimensões consoante se pretende mais ou menos "chata".
Ceferino Carrera Sobre este tema visite: www.ovarvirtual.com
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"O Escanção" no mundo do Vinho
O ESCANÇÃO - DA SUA ORIGEM ATÉ AOS TEMPOS MODERNOS Através de inúmeras citações, em lendas, escritos antigos e textos bíblicos, conhecem-se testemunhos que comprovam a existência e nobreza do Escanção. Embora alguns textos sejam discutíveis e a verdade dos factos nebulosa, o certo é que, quem ostenta tão justo título, não pode ignorar a nobreza e antiguidade da função. NA MITOLOGIA E NA BÍBLIA Na mitologia Grega encontramos a Deusa Hebe (1), filha de Júpiter (2) e de Juno (3), encarregada de servir aos Deuses, no Olimpo (4), o Néctar (5) e a Ambrósia (6), até ser, por ordem de Zeus substituída nessa tarefa por Ganimedes (7), Príncipe Troiano, filho de Trós (8) , cujo rapto Homero, poeta Grego do século IX a. C. ,descreve num dos seus poemas. (1) Hebe deusa da Juventude, filha de Júpiter e de Juno encarregada por Júpiter de servir aos deuses o Néctar e a Ambrosia até que foi substituída por Ganimedes. Desposou Hércules, quando este tomou lugar entre os deuses. (2) Júpiter - principal divindade dos Romanos identificado como Zeus dos Gregos, pai e senhor dos deuses; filho de Saturno (ou Cróno) e de Reia, marido de Luno (Hera), residia no Éter ou sobre o Olimpo entre os outros deuses. Presidia a todos os fenómenos celestes: estações, nuvens, tempestades, raio, etc. Quando nasceu, para o livrar de ser devorado por seu pai, Reia escondeu-se em Creta, onde foi amamentado por cabras; chegando à idade adulta, destronou Cróno, venceu os Titãs e os Gigantes, precipitando-os no Tártaro, deu o mar a seu irmão Neptuno, o Inferno a seu outro irmão Platão e guardou para si o Céu e a terra. Teve uma série de aventuras amorosas na Terra e no Céu e foi pai de numerosos deuses, semideuses e heróis, o que originou muitas questões com Hera ou Juno. Os seus atributos principais são: A Águia ,o Raio e o Ceptro e valeram-lhe os cognomes de Júpiter, Tomante, Júpiter Ferétrio, etc. (3) Juno - divindade latina identificada com a divindade grega Hera, esposa de Júpiter, filha de Saturno e de Reia, rainha do Céu, deusa dos fenómenos celestes e do casamento. (4) Olimpo - nome de várias montanhas da Grécia antiga. A mais famosa estava situada entre a Macedónia e a Tessália, com a altitude de 2911 m. Segundo a fábula, era residência dos deuses. Hoje é o Elymbos Vouno, sempre coberto de neve. (5) Néctar - bebida dos deuses da fábula (bebida deliciosa). (6) Ambrosia - substância deliciosa com que se alimentavam os deuses do Olimpo (manjar delicado) e tornava imortais a todos aqueles que a absorviam. (7) Ganimedes - príncipe troiano, filho de Trós e da Ninfa Calírroe, Zeus, metamorfoseado em águia, arrebatou-o e levou-o para o Olimpo para substituir Hebe como escanção dos deuses. (8) Trós - herói epónimo ( que dá ou empresta o seu nome a alguém) de Tróia, filho de Erictónio e neto de Dárdano, rei da Frígia, pai de Ganimedes. Foi o que deu o nome à cidade de Tróia, que antes se chamava Ílion. Remontando-nos aos tempos bíblicos, vemos que o Escanção era um grande oficial, a quem, os soberanos tinham em alta estima e consideração. Na Corte de Salomão (1082-975 A. C.), no banquete que o rei ofereceu à rainha do Sabá, ficou esta deslumbrada com os manjares e a beleza dos trajes dos Escanções. O rei Assério, Senaquerias (681 A. C.) encarregou uma vez o seu Escanção- Mor de reclamar, junto do Rei de Judá, a rendição de Jerusalém. Também Neemias, que restaurou a nacionalidade Judaica no século V a. C., tinha sido Escanção - Mor do monarca Persa Artexerxes. No génesis "1" (40-41) é descrito o encontro, na prisão, entre o Escanção - Mor do Faraó e José do Egipto. Na época romana, o lugar era normalmente exercido por Efebos (2) escravos ou libertos, dotados de boa aparência física e com qualidades gustativas, especializados no doseamento de vinho com mel e várias especiarias, como era hábito ao tempo. Os patrícios (3) tinham grande consideração por estes seus servidores que, pelo vinho que serviam mantinham a reputação das suas casas.
(1) Génesis, o primeiro livro do Pentateuco de Moisés e de toda a Bíblia, em que se descrevem a criação e os primeiros tempos do mundo. Pentateuco - os cinco livros de Moisés e que são os primeiros da Bíblia. Estes livros são : o Génesis, ou a Criação, até ao estabelecimento do Egipto; o Êxodo, ou a Saída do Egipto, o Levítico ou Livro das Prescrições Religiosas; os Números, exposição da força material do Povo; o Deuteronómico, complemento dos livros precedentes. O Pentateuco, escrito em hebreu arcaico, é o fundamento da História de Israel. (2) Membro do colégio oficial dos Efebos entre os Atenienses; os Efebos recebiam em Atenas uma educação oficial. (3) Patrícios - relativo à classe dos nobres entre os Romanos: Cônsul, Patrício (aristocrata) NA EUROPA, EM ESPECIAL NA FRANÇA Este nobre cargo existia já entre os Godos, a ele se aludindo num dos capítulos da célebre "Lei Sálica" (1). No concílios VII, do ano 625, a XIII do ano 683, reunidos em Toledo, há referências à elevada posição que ocupavam os Escanções.
Na corte de Carlos Magno existia o Escanção - Mor, cuja autoridade era respeitada por todos. Em França, o primeiro Escanção foi instituído por Henrique I (1060), de seu nome Hugo. Porém só no reinado de S. Luís, O Escanção - Mor se tornou personagem importante na corte. Em "Le Grand Dictionnaire Historique" do Padre Luís Moreri, (Paris, 1725) encontram-se citados 44 nomes de Escanções de França. Na época de Luís VIII ( princípios do século XIII) o Escanção ocupava o segundo lugar na hierarquia da corte, enquanto que, cinco séculos depois, no tempo de Luís XIV, a dignidade de "Premier Echanson de France" já então um título, passou a ter um carácter honorífico .O Escanção mantinha sob a sua autoridade 24 Gentis - Homens, afim de servirem o Rei e nas cerimónias solenes. Na Monarquia Francesa, no entanto, o cargo foi perdendo a sua alta dignidade, terminando por completo em 1702, quando era primeiro Escanção de França o Marquês de Lamermay. A configuração heráldica do nobre cargo, era formada por duas garrafas de prata com as armas do soberano, tendo por baixo o brasão do titular. (1) Lei Sálica (486-496) - Regras de Direito Civil, uma disposição exclui as mulheres à sucessão da Terra Sálica, a terra vinda dos antepassados. Em todas as casas reinantes da Europa existiu este ofício, sempre exercido por personalidades de alta linhagem. Por exemplo, na Irlanda, há referência a Teobaldo Walter, que juntou a designação "Butler" (Escanção), ao seu próprio nome. Na corte inglesa, segundo se sabe, além das prerrogativas inerentes ao cargo, os Escanções usufruíam de uma comissão sobre os vinhos importados. EM PORTUGAL No reinado de D. Afonso Henriques, parece ter sido seu Escanção Fernão Peres, cavaleiro que gozava do maior prestígio na corte. Na crónica de D. Sancho II, por Frei Caetano Brandão, cita-se Martin Moniz, como Escanção - Mor d' EI- Rei. No tempo deste Rei como no de D. Afonso II, o Escanção dispunha de dois homens para o ajudarem. Costumava receber três quartas do vinho. Foi Pêro Fernandez quem ocupou tal cargo nas cortes de D. Afonso III e de D. Dinis. Logo que aclamado Rei, em 1385, D. João I, Mestre de Avis, proveu os ofícios da sua casa e os cargos públicos a que mais importava atender , escrevendo Fernão Lopes que, entre tais ofícios figurava o de Escanção. Na época de D. Afonso V, João de Mello e Martim Afonso de Mello (1463) figuraram como personalidades que ocuparam este elevado cargo. Posteriormente, muitas individualidades foram as que desempenharam o digno cargo de Escanção - Mor: Fernão de Lima, Alcaide - Mor de Guimarães ; João de Melo, Alcaide - Mor de Serpa ; Francisco Sousa e Menezes, Alcaide - Mor da Guarda. No século XVIII, D. João V atribui, o cargo de Escanção - Mor aos Condes de Vila - Flor. Porém ao subir ao trono D. Miguel no Séc. XIX retira-lhe o privilegio e entrega-o aos Condes de Penamacor que o sustentaram até à queda da Monarquia, em 1910. Mais nomes se poderiam acrescentar de personalidades que ostentaram o título na Corte Portuguesa, haveria porém, o perigo de tornar este trabalho fastidioso, pelo que o termino aqui, presumindo que esta simples referência seja suficiente para justificar a antiguidade e nobreza do cargo. BREVE REFERENCIA: A ORIGEM E FORMAÇãO DO VOCABULO "ESCANÇÃO" . Muito embora animado da melhor vontade, escasseiam-me no entanto os conhecimentos especiais necessários ao aprofundamento, com autoridade e saber, de um estudo etimológico. É este, portanto, o motivo, porque apresento apenas um resumido trabalho, coligido de diversos autores, o qual, de qualquer modo, me parece suficiente para esclarecer donde deriva o termo que, actualmente, reapareceu para designar o profissional de vinhos na Indústria Hoteleira. Numa simples consulta, verificamos que os estudiosos da etimologia não estão de acordo quanto a origem do vocábulo em questão: -Para Atenor Nascentes (Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa) deriva do Gótico "SKANJA". -Segundo Maurice de La Chatre (Dictionnaire Universel -1852) , provém do Céltico "ESCANZARIA ". -O Padre Louis Moreri , refere-se a "SCANTIO" (Le Grand Dictionnaire Historique). - E, o Cardeal Saraiva, nas suas "Obras Completas" conclui que alguns o derivam do Céltico e outros do alemão "SCHENK". Há assim, como se vê, diversas opiniões avalizadas, mas isso não destroi, quanto a nós, o principio, que derive do latim não do clássico mas do vulgar -"SCANCIO" ou "SCANCIONARIUS" é quem deita o vinho ( mas que conhece bem a qualidade e o vinho que deita no copo) e como já foi dito SCANCIONARIA é a sala onde o vinho era distribuído. E, já o Padre Moreira das Neves num dos seus artigos refere o seguinte texto das Ordenações Afonsinas: "... se mede o vinho ou o escança aos bebedores na Taberna". No Doutor Morais, Escanção significa aquele que reparte o vinho, enquanto que no democrático Dicionário Porto Editora, o que enche os copos ( do Germ. SKANJA). Se é verdade que, por vezes, somos levados a pensar que se trata de simples picuinhas dum passado distante, não pode ser menos verdade que, para além do estudo técnico, é pela elevação da sua cultura geral que o profissional enriquece a sua personalidade e se valoriza socialmente, com benéficos reflexos no perfeito desempenho das suas funções. NOS TEMPOS ACTUAIS A função democratizou-se, quem actualmente ostenta tão honroso título não possui sangue fidalgo nem pergaminhos de nobreza. Notabiliza-se porém, pelo enriquecimento dos conhecimentos adquiridos e pelo requinte que disponha a essa bebida, tão inebriante como nobre, que é o vinho. O Escanção é o profissional de hotelaria especializado em tudo que diz respeito ao vinho e todas as outras bebidas, desde a água ao mais sofisticado dos destilados . O bom desempenho das suas funções, implica necessariamente possuir: boa capacidade de relacionamento com os clientes, um perfeito conhecimento do sector vitivinícola nacional e internacional, bons conhecimentos de gastronomia, um bom nível de cultura geral e um bom domínio dos principais idiomas (visto que somos um país turístico visitado por pessoas de todos os cantos do Mundo). O bom Escanção deve estar em condições de responder a todas as perguntas dos clientes ,quer sejam de ordem técnica, histórica ou cultural. Esta especialidade requer, portanto, para além de uma certa dose de talento, um estudo e uma aplicação constante, estar ao corrente das produções nacionais e internacionais, saber as características de cada vinho sem esquecer a qualidade das diferentes colheitas. Deve aconselhar ,de forma subtil mas firme o cliente (sempre que seja chamado para tal) em função da refeição escolhida ou vice versa isto é, escolhendo primeiramente os vinhos e posteriormente as iguarias mais adequadas aos mesmos. Escolhido o vinho, deve a respectiva garrafa (s) ser aberta (s) à temperatura conveniente, temperatura esta que se deverá manter, afim de realçar as qualidades intrínsecas da bebida. Uma coisa o Escanção tem de ter sempre presente no seu espírito: Deve fazer provar e servir os vinhos e, perante os cumprimentos, manter-se modesto porque ...não é o Escanção que se cumprimenta mas, o vinho que se felicita... ! Porque os vinhos do País não são uma dádiva gratuita da natureza, não apareceram espontaneamente as vinha não foram plantadas duma só vez, mas é o trabalho paciente de várias gerações, que com respeito e dignidade criaram vinhos de uma qualidade e reputação que os tornam conhecidos em todo o Mundo; Daqui quero prestar homenagem ao trabalhador da viticultura e vinicultura e aos excelentes Enólogos que desempenham as suas funções no nosso País; porque como Escanção que sou, entendo que os Escanções devem ser ( são) os interlocutores entre quem elabora os excelentes vinhos e o consumidor; enaltecendo as qualidades naturais da bebida, assim como todo o saber que os nossos Enólogos emprestaram aos nossos vinhos.
Ceferino Carrera. Lisboa, Junho de 2002. |
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A Tanoaria em Portugal in "Ovar Virtual"(0001 - 2003)
A indústria da tanoaria é por nós considerada como das menos conhecidas, dentro do tão vasto sector da madeira. A razão pelo seu destaque deve-se ao facto desta ser representada quase exclusivamente pelo distrito de Aveiro, nomeadamente pelas freguesias de Esmoriz, Cortegaça, Maceda e Ovar do concelho de Ovar e Paramos do concelho de Espinho. Existem outras zonas no país onde a indústria da tanoaria também ocupa o seu lugar, é o caso de, Vila Nova de Gaia, Lisboa e outras províncias com pequenas unidades artesanais, dedicadas praticamente à revenda e restauração. Focaremos a nossa atenção na Tanoaria de Esmoriz pela sua móvel e curiosa história. O Passado Em tempos da guerra colonial a manutenção militar comprava quantidades enormes de vasilhame para enviar vinho para os nossos soldados no ex-ultramar. Muitas das milhentas tanoarias então existentes trabalhavam para esse mercado. Nas primeiras décadas deste século, o grande centro tanoeiro era Vila Nova de Gaia e a isso não era indiferente o papel na comercialização do vinho do Porto. Como o envelhecimento do vinho, e não só, necessita de bons "cascos", Vila Nova de Gaia transformou-se num centro de tanoaria da mais alta importância. Nessa altura, alguns esmorizenses palmilhavam os 20 km que nos separam de Gaia, para ganhar o pão de cada dia nessas tanoarias. Pensa-se que terão sido essas pessoas que trouxeram para a sua terra a arte de tanoaria. Instalando-se em acanhados alpendres e cobertos, trazendo consigo a força do trabalho e não mais que as ferramentas iguais às que à dezenas e centenas de anos os seus colegas de ofício usavam. Com o aumento constante da procura e consequente produção, os primeiros "industriais" em breve se viram na necessidade de ampliar instalações. De facto a tanoaria ficará para sempre a marcar a transacção de Esmoriz dos campos e do mar para a Esmoriz das fábricas. A indústria de Esmoriz rapidamente se transformou num centro de preferência pela excelência dos seus artistas e capacidade de trabalho. O grande impulso da tanoaria de Esmoriz foi dado pela transformação no fabrico, que de manual passou gradualmente a maquinado, embora parcialmente, mas abrangendo as operações consideradas mais morosas. Teve neste aspecto influência decisiva o Decreto-lei nº42808 de 16/01/60, ao obrigar as industrias viradas à exportação a remodelarem as suas instalações, obedecendo a determinadas exigências. Na aparência, este decreto- lei, pelas suas exigências deveria ser considerado como grande impulsionador da industria e consequente benéfico. E sê-lo-ia efectivamente se em 25/09/67 não tivesse surgido a tão discutida Portaria n.º 224 que proibiu a exportação do vinho em barril. Desde logo salta à vista a disparidade entre estes dois documentos. Em 1960 obriga-se a indústria virada à exportação a remodelar-se de alto a baixo, volvidos sete anos proíbe-se a exportação. É exactamente nessa altura que tem início a actual crise da indústria de tanoaria em geral e Esmoriz em particular. Presente e futuro Como se disse a indústria da tanoaria em Esmoriz começou por volta de 1910 vindo a aumentar progressivamente até 1967. Daquela data ao presente aparecem-nos crises alternadas com períodos de normalidade e prosperidade apresentando-se actualmente numa situação mais agravada pelo actual contexto político-económico. Para além de umas quantas a laborar artesanalmente, são hoje mais de uma dezena as indústrias tanoeiras de Esmoriz e a maior delas emprega 21 pessoas. Foi sem dúvida uma grande queda, mas as que resistiram, têm uma certa estabilidade. Provavelmente, perderão o mercado espanhol (que quer qualidade mas não se dispõe a pagar o justo) mas ele pode ser compensado com uma maior penetração noutros países da CEE. Por outro lado, volta e meia acusam pequenas quebras ditadas por um ano de menos produção vinícola, mas, apesar disto, pode-se falar numa certa estabilidade. Ameaças ao futuro da tanoaria esperam-se para dentro de uma década, não por falta de encomendas, mas por comércio de mão de obra. É que os tanoeiros especializados têm todos mais de 40 anos e a sua reforma não tardará enquanto que os jovens não sentem qualquer atracção para o sector. Apesar de exigir engenho e arte, a profissão é dura e mal paga.
Curiosidades 15 passos para obter um barril Fase de serração 1º- A madeira (de castanho), que chega em toros é cortada em abas e, depois, em aduelas. 2º- Durante cerca de meio ano, as aduelas vão permanecer em grades ou castelos para secar. 3º- Quando as aduelas "são chamadas" ao destino, procede-se à destrinca: as melhores, depois de aperfeiçoadas, são destinadas ao corpo dos barris; as outras servirão para os tampos; e um terceiro grupo das que têm nós ou estão rachadas ficam de lado. Fase de tanoaria - Os tampos 4º- Os tampos são feitos, unindo-se as aduelas de madeira fraca por intermédio de pregos de duas pontas. Em cada junção é colocada "palha de tábua", para vedar bem. 5º- Seguem-se duas fases de aperfeiçoamento: a de arredondamento do tampo, um trabalho a que um compasso de ferro dá as coordenadas; e a da fundagem (alisamento da madeira). - Os arcos 6º- São feitos em ferro importado da Alemanha. Cortam-se na medida exacta e unem-se as extremidades com cravos. 7º- O corpo do barril 8º- As aduelas utilizadas para este efeito - as mais perfeitas - são cortadas nas medidas exactas e "isquidas" e enlombadas (dá-se-lhe o bojo). - A montagem 9º-O barril é montado, não com os arcos definitivos, mas sim com os chamados "arcos de bastição", que se caracterizam por uma maior resistência, necessária para aguentar as pancadas com a malho. 10º-Num desses cucos, encaixa-se o "moço" ( faz o lugar de um homem) e a ele se irão encostar as aduelas. 11º-É com a "pareia" que se calcula o n.º de aduelas suficientes para um barril de dada dimensão. 12º-Fechado o círculo, prendem-se as aduelas com outro arco de bastição. 13º-Segue-se o espargimento ( os barris vão ao fogareiro para apertar os arcos). 14º-Trocam-se os arcos de bastição pelos definitivos, mas antes da colocação dos últimos, aplicam-se os tampos, com a ajuda de um "alheta". 14º-Veda-se o barril com parafina e barro.
in "www.ovarvirtual.com"
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Firmas & Marcas |
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"Ramos Pinto" Adriano Ramos Pinto (Vinhos), S. A.(1880 - 2002)
A "Adriano", foi fundada em 1880 pelo Adriano Ramos Pinto. Um pouco mais tarde seu irmão António associa-se à empresa, sendo determinante para o seu desenvolvimento. Graças à excelente qualidade dos seus vinhos, a firma é reconhecida no mercado brasileiro. Seleccionou um tipo de vinho de qualidade bem superior ao nível do exportado e deu-lhe uma embalagem com uma apresentação cuidada, desde a cápsula à caixa de madeira. Este vinho --o Adriano -- tinha um preço duas vezes superior à média do mercado. Com uma visão comercial precursora no sector do vinho do Porto, acompanhou a promoção da sua marca com um bem planeado marketing baseado na qualidade dos seus vinhos, assim como, numa publicidade através de cartazes de grande nível artístico, obras dos mais famosos artistas do início do século: Leonetto Cappiello, Matteo da Angelo Rossotti, L. Metlicovitz, René Vincent e entre nós, António Carneiro, Ernesto Condeixa e Roque Gameiro. Foi João de Almeida que, com o seu tio, Jorge Ramos, identificou pela primeira vez as principais castas varietais do vinho do Porto. Os actuais dirigentes, entre os quais se encontram alguns dos descendentes de ARP, asseguram a perenidade da Firma afamada pelo estilo característico dos seus Vinhos do Porto. Acompanhando a Arte apoia várias acções culturais: música, literatura e artes plásticas. Na música destacam-se o Concerto da Primavera que se realiza anualmente nas suas caves e o patrocínio da prestigiosa série de concertos anuais no Maksoud Plaza de São Paulo. ARP possui cerca de 175 ha de vinha plantados, repartidos por 4 quintas: Quinta do Bom Retiro, Quinta da Urtiga, Quinta dos Bons Ares e Quinta de Ervamoira. Esta casa foi pioneira na área da vitivinicultura onde, fruto de investigação e de estudos precursores na selecção das castas e das inovadoras plantações verticais, soluções estas, hoje adoptadas na generalidade. Cerca de 20 por cento dos vinhos são ainda vinificados em lagares, pois consideram que esta ainda é a melhor forma de extrair o máximo de aromas e de cor através da maceração pelicular. A sede da ARP, construída em 1708, localiza-se em Gaia, na Avenida Ramos Pinto, tendo como companhia o Rio Douro. Os seus armazéns e garrafeiras situam-se na Calçada das Freiras. Desde 1990, a companhia é controlada pela casa francesa Louis Roederer. Hoje ainda trabalham quatro bisnetos do irmão fundador e o Administrador João Nicolau de Almeida.
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Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do A. D.(1756 - 2002)
Foi no dia 10 de Setembro de 1756, por Alvará Régio de El-Rei D. José I e sob os auspícios do seu Primeiro Ministro, Sebastião José de Carvalho e Mello, Marquês de Pombal, que foi constituída a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, também denominada de Real Companhia Velha. Esta companhia era formada pelos principais lavradores do Alto-Douro e Homens Bons da Cidade do Porto. À Companhia foi confiada a missão de sustentar a cultura das vinhas, conservar a produção delas na sua pureza natural, em benefício da Lavoura, do Comércio e da Saúde Pública. Parte da história desta companhia é descrita neste Guia, na breve história do Vinho do Porto. No entanto, não queria deixar de focar mais alguns dados importantes na história desta tão importante casa. Em 1781, a Real Companhia Velha leva os seus vinhos até Catarina da Rússia, através de grandes carregamentos em navios fretados para o efeito, iniciando assim a navegação portuguesa para portos do Báltico e as permutas comerciais com aquele país. Durante as Invasões Francesas (1809), as tropas de Napoleão requisitaram os vinhos da RCV, que assim faziam parte da ração dos soldados Franceses. Quase ao mesmo tempo (1811), Lord Wellington e as suas tropas consumiam também os vinhos da RCV, destacando-se um fornecimento de 300 pipas, feito através dos seus armazéns da Régua, ao exército de então estacionado em Lamego. Durante os séculos XVIII e XIX, grandes esquadras de navios carregados com Vinho do Porto da Real Companhia Velha partiram para o Brasil, onde a Companhia detinha o exclusivo do fornecimento dos vinhos do Alto-Douro. Nos anos de 1851/52, a Companhia possuía entrepostos comerciais para os seus vinhos em quase todos os portos do mundo, sob a protecção das missões diplomáticas portuguesas. Para fazer face a esta enorme expansão, a Companhia teve de mandar construir diversas fragatas de guerra para proteger a navegação portuguesa dos piratas argelinos que vagueavam ao largo da costa portuguesa. Em 1762, a Companhia cria no Porto a Aula de Náutica, mais tarde convertida na Real Academia de Comércio e Marinha, em 1803. Mais tarde esta Academia foi transformada na Academia Politécnica do Porto, que está na origem da actual Universidade do Porto. Entre 1789 e 1791, a Companhia procedeu a uma série de trabalhos de melhoramento da barra do Douro. No Douro mandou cortar os rochedos que formavam o Cachão da Valeira; este trabalho começou em 1780 e terminou em 1792, vindo assim regularizar o curso do Rio Douro, tornando-o navegável até Barca d` Alva. Por Alvará Régio de 1760, a RCV, foi autorizada a montar destilarias para a produção de aguardente vínica, nas províncias da Beira, Minho e Trás-os-Montes. Em 1855, foram destiladas 85.658 pipas, tendo produzido 8.087 pipas de aguardente. Para sustentar a cultura das vinhas, a Companhia emprestou somas importantes aos lavradores necessitados, permitindo, assim, uma melhoria dos preços dos vinhos e, por conseguinte, uma significativa melhoria no rendimento dos lavradores. Fruto dessa acção, chamavam à Companhia o Banco do Douro Esta empresa foi adquirida em 1960, bem como a Real Vinícola em 1962, por Manuel da Silva Reis, mantendo-se nesta família até aos dias de hoje.
Autor: Abílio Forrester Zamith In Guia do Vinho do Porto, Chaves Ferreira - Publicações, S.A. |
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História |
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Antão de Carvalho(1871 - 1948)
Em 1931, a lavoura duriense passa mais uma vez por momentos difíceis, não conseguindo controlar o preço do seu vinho, que cai constantemente, e esperando-se a todo o momento uma situação de ruptura. Era preciso criar um organismo associativo que não só defendesse o vinho e a região, mas também os promovesse. Aconteceu então que um conjunto de ações foram levadas a cabo por homens destemidos e de muito mérito, como: Carlos Amorim, Joaquim Carvalhais, Dr. Bonifácio da Costa, Dr. Antão Fernandes de Carvalho, Eng. Artur Castilho, estes dois últimos com a responsabilidade de fazerem o "Estatuto do Douro", que viria a ser alterado pelo governo. Fez-se então um contraprojecto, mais uma vez não só da responsabilidade do Dr. Antão Fernandes de Carvalho, como também do Dr. Camilo Bernardes Pereira e do Eng. José da Costa Lima, e que viria a ser aceite. E foi assim que, em 19 de Novembro de 1932, o governo, aceitando esse novo projeto do Estatuto do Douro, fez publicar o decreto-lei nº 21883 criando a Federação Sindical dos Viticultores da Região do Douro, hoje Casa do Douro. A Casa do Douro e esta região demarcada muito devem a homens como o Dr. Antão Fernandes de Carvalho, que com o seu saber, carácter e influência muito contribuíram para a sua criação. Nasceu no ano de 1871, no lugar de Vila Seca, freguesia de Poiares e concelho de Peso da Régua. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e ocupou lugares de destaque como o de deputado, Presidente da Comissão de Viticultura da Região do Douro, Presidente da Câmara do Peso da Régua, Secretário do Estado do Comércio, sub-Secretário do Estado da Presidência, Ministro da Agricultura, do Comércio e Pescas e outros cargos que seria fastidioso aqui referir. Veio a falecer em 1948. Morreu o homem, mas ficou a obra...bem-haja. Citando Carlos Amorim: "A sua figura máscula, hercúlea, bem vincada, à beira do grande edifício, é como que uma sentinela, sempre firme no seu posto, a vigiar e a guardar." In Villa Regula - Março de 2000 - texto de Marco Aurélio Peixoto |
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António do Lago Cerqueira(1880 - 1945)
Dr. António do Lago Cerqueira nasceu na Casa da Calçada (Cepelos), em 11 de Outubro de 1880. Formou-se em Filosofia pela Universidade de Coimbra. Com grande actividade política, foi figura de destaque no partido democrático chefiado pelo Dr. Afonso Costa. Ocupou durante alguns anos na Câmara Municipal de Amarante, o lugar de Presidente, onde deixou algumas obras de vulto, das quais se destaca a construção da Central no rio Olo que serviu para que pela primeira vez chegasse a electricidade à Vila de Amarante. Exerceu também altos cargos no poder Nacional, como o de Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ministro do Trabalho. Por questões políticas teve de se ausentar para França. Em Paris, frequentou o curso de Viticultura e Vinificação no Institut National Agronomique. Os conhecimentos adquiridos na área da vitivinicultura permitiram-lhe introduzir melhoramentos nas suas propriedades, de tal modo que fundou as Caves da Calçada, que espalharam por todo o território nacional e internacional os seus excelentes vinhos e derivados. Em sua homenagem foi erigido um busto em bronze na Avenida General Silveira, e foi dado o seu nome à Escola Profissional de Vitivinicultura de Amarante, onde se faz formação no âmbito da vitivinicultura, análises, gestão e outras especialidades. (Amarante - Uma ponte entre a história e a Natureza, Anégia Editores, 97
VINHO VERDE DE UVAS MADURAS !!!
Na época, António do Lago Cerqueira foi o maior vinicultor da região de Amarante, pela expansão nacional e internacional da sua casa agrícola, - um presidente da câmara com o sentido moderno de gestão e do projectos avançados para a desenvolvimento, - um político democrático sempre coerente com os seus princípios, pelos quais sofreu a prisão, a enxovia e o exílio: em 1918, na ditadura de Sidónio Pais, em 1919, na Monarquia do Norte, também chamada Traulitânia, e no regime da Ditadura, de 1927 até a década de 40 - em que, já sexagenário, autorizaram o regresso à Pátria. Além de presidente da Câmara de Amarante, foi membro do Directório do Partido Democrático, deputado, ministro do Negócios Estrangeiros, em dois ministérios, e ministro do Trabalho, durante o período de 1910 a 1926, isto é, durante 15 anos, tanto durou a 1ª República e a sua acção política. Nasceu em 11 de Outubro de1880 - aceitemos este ano, afastando a versão que refere o anterior - e teve um irmão e uma irmã. Foi ali na Casa da Calçada - onde também faleceu em 28 de Outubro de 1945, meses depois da vitória dos Aliados, na II Grande Guerra Mundial, satisfação que pode ainda levar para o túmulo. A guarita de pedra, vários motivos arquitectónicos e os merlões, vulgarmente chamados ameias - os especialistas chamam ameias apenas aos espaços livres entre merlões - identificam junto da ponte velha do séc. XVIII, a Casa da Calçada, que é das mais grandiosas da cidade e que, ultimamente, sofreu ampliações para efeitos de um majestoso hotel de turismo. Provindo da aristocracia rural amarantina, da qual divergiu com os evidentes atritos, licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Coimbra, diplomando-se ainda, mais tarde, em França, num instituto de Agronomia. Mas não usava títulos universitários nos cartões de visita. Só por baixo do nome imprima em francês "ancien ministre", antigo ministro da República, quando vivia exilado em França. Também nos documentos oficiais, a seguir ao nome de registo civil, escrevia só "proprietário viticultor". Todo o seu trato ou relacionamento com as diversas classes sociais era de impecável educação e elegância. Por invulgar nas pessoas de berço doirado, referimos ainda que na rua por mais estranho que pareça, conhecia um a um os habitantes. De boa memória visual e fisionómica, mesmo na gente mais humilde, conhecia os clãs e parentescos, o que decerto viria a influir nos seus êxitos eleitorais. Quando estudante em Coimbra, portanto no virar do séc. XIX para o XX, conviveu com jovens entusiasmados pelos ideais republicanos, de que, apesar da fortuna pessoal, nunca se afastou e pelas quais sofreu mais doze anos de exílio, com os evidentes prejuízos em todos os sentidos. Antigamente não era raro empobrecerem - às vezes até à miséria - os que se devotavam à política. Agora, já prevenidos, parece que não chegam a esse extremo... Como se pode depreender do volume "O Livro do Dr. Assis", de Alberto Costa (Ex-Pad Zé), a casa que ocupava em Coimbra era de grande fausto mas também de grande generosidade. Um mundo de referências lendárias envolveu Lago Cerqueira: Os galgos russos brancos, com correntes de prata - o estojo de toalete masculina mais completo da Europa (quando então havia muitos reis e príncipes) - salões de banhos turcos e árabes - os avisos antes da busca domiciliária da polícia - o anel brasonado no dedo democrático - o chefe da estação ferroviária só a dar partida quando chegasse - a bandeira hasteada, assinalando a presença do senhor na quinta, com o seu castelinho apócrifo e decorativo, como são todos os panos de pedra ameada dentro da nossa cidade. Todo este aspecto pomposo e de refinamento faz lembrar o Jacinto do romance "A Cidade e as Serras", de Eça. Temos de colocar Lago Cerqueira no espírito "fin-de-siècle", na transição da Monarquia para a República, coisa que era impossível ser rápida, se quisermos entender bem a época. Ao mesmo tempo, entretanto, germinavam os mais puros ideais de emancipação e justiça social, uma devoção ecologista e estética pela árvore, com os seus rituais, que Salazar, depois aboliu, uma exaltação do trabalho, com um ministério, que a Ditadura também eliminou. Exaltava-se o trabalho como força de produção de riqueza e da dignificação do homem. Decerto que eram ideias um tanto mitificadas mas agora, que se celebra a especulação, as mil maneiras de ganhar sem suor, não parece que tenhamos progredido. Os adversários políticos, diante do seus êxitos eleitorais, acusavam-no de caciquismo e favoritismo nos empregos que, a vários níveis, conseguia, organizando obras de toda a espécie. O bom empregador é sempre compensado em votos nas zonas de grandes carências. A verdade porém é que os adversários, estatisticamente, tinham vantagem, podiam dominar a maioria do eleitorado, com todos os seus caseiros, trabalhadores, afilhados e dependentes. Por outro lado, os adversários não poderiam ficar em casa, quando toda a gente o vitoriava na rua, pela inauguração da luz, pelo regresso do exílio da Traulitânia, enfim nas manifestações puramente cívicas e apartidárias, como em Abril de 1918, 2 de Outubro de 1919 ou 4 de Dezembro de 1920. Contraste flagrante este! Se o general Carmona, presidente da República, passava por Amarante, de visita anunciada, praticamente só elementos da Câmara soltavam frouxos vivas. Quando, na década 40, regressou o exilado Lago Cerqueira, se passava a pé pela rua, não mentiremos se afirmarmos que toda a gente - homens, mulheres e crianças - o saudavam, num contagiante sinal de respeito, a que respondia a sorrir, com largos movimentos do chapéu. Sem excepção, parece, os adversários políticos coincidiam num ponto: Lago Cerqueira era um homem de trabalho e de acção - o que não exclui a sua formação estética, tanto no sentido moral, como nos pormenores das coisas que fazia. Vejam-se os rótulos das garrafas da sua casa agrícola "Les Vins du Portugal", "Os Vinhos de Portugal". Toda a sua acção porém, administrando a Casa da Calçada ou a Câmara de Amarante ou como político, é o inverso ou está em contradição com os boatos e lendas e os reais, verdadeiros, exteriores de pompa e grandiosidade. Não vamos aqui aprofundar estes aspectos contraditórios da personalidade do nosso conterrâneo, porque é na acção que vamos encontrar, não nos exteriores ou na obra escrita, como em Pascoaes ou António Cândido. De escrito pela sua mão, Lago Cerqueira deixaria apenas alguns artigos em revista francesas e a sua tese no Instituto francês de Agronomia, "Les Vins du Portugal", "Os Vinho de Portugal", publicada em volume, no ano de 1929, de três mil exemplares, com gravuras, de largas críticas à política vinícola de então. Do seu trabalho sob o título "A Situação da Lavoira, especialmente da Viticultura", que em França teria escrito, dentro de um plano geral dos exilados políticos para o restabelecimento democrático de Portugal, ao que se sabe, não foram encontrados vestígios. Quando em Braga estalou o 28 de Maio de 1926, cujo cariz foi inicialmente ambíguo, antes de se declarar Ditadura da Direita, Lago Cerqueira era Deputado. Três dias depois do golpe militar de Gomes da Costa (que, a seguir, ele próprio, foi exilado pela Ditadura), portanto no dia 31 de Maio, reuniu ainda o Parlamento mas sem "quorum". Só responderam 38 deputados. Dada por encerrada a sessão, ouviu-se um brado: Viva a República! Era Lago Cerqueira. E só 48 anos depois, com o 25 de Abril de 1974, regressaria o regime democrático que temos hoje. O facto é que Lago Cerqueira estava presente nos grandes momentos: de perigo e derrota, no Parlamento, em 31 de Maio de 1926, - na revolução anti-ditadura do 3 de Fevereiro de 1927 - como na implantação da República em Amarante, na tarde do dia 6 de Outubro de 1910. Como é sabido, especialmente pela data do feriado nacional, a bandeira verde e vermelha, que substitui a azul e branca da Monarquia, foi hasteada na Câmara de Lisboa no dia 5 de Outubro de 1910. Demorou portanto alguns dias até que o regime republicano fosse simbolizado pelas bandeiras ao longo do país. Com as dificuldades de comunicação de então, em Amarante, foi na tarde do dia 6, um dia depois. Era um grupo de amarantinos e lá estava também Lago Cerqueira, ao içar da flâmula verde e vermelha na Câmara Municipal. Como presidente da Câmara de Amarante, com uma edilidade em espírito de equipe ou colegialidade, realizou importantes melhoramentos públicos. Falaremos de alguns concluídos e de outros que, apesar da fase adiantada, ficaram definitivamente suspensos ou abandonados pelo 28 de Maio. Referimos já os Serviços Florestais, sede da 6ª Administração. Um outro empreendimento importante foi toda a estrutura da Hidreléctrica do Olo, cujas obras correram de 1914 a 1917, para fornecimento de energia ao concelho, que hoje já não se aproveita por ser de 110 volts, como era de estilo há 70 anos, e agora generalizada para 220. Desta obra ficou um álbum com fotografias, esclarecendo todo o desenvolvimento das obras. Estávamos em plena I Grande Guerra, que nos envolveu não só em França, como em África, nas colónias de então. Época difícil para uma Hidroeléctrica. Era preciso vencer fortes obstáculos, que iam dos problemas técnicos aos financeiros, passando pela opinião obstrucionista dos grande proprietários. Não era só um sentido muito agudo de contabilidade e previsão. Em Lago Cerqueira confluía ainda uma personalidade forte mas comunicativa, um perfil de gestor progressista, e uma crença arreigada nos homens e nas suas possibilidades. Outras realização foi a chamada Escola Primária Superior, de que vários amarantinos beneficiaram, já que havia sido extinto o Liceu de Amarante, em que estudou Pascoaes. Depois do 28 de Maio foi fechada. Outra carência de premente necessidade era, então, o abastecimentos domiciliário de água. Mas havia prospecções, pesquisas, canalizações - de que restam as infra-estruturas - atravessando terrenos, o que envolvia forte oposição dos proprietários rurais. Suspensos os trabalhos pela Ditadura, Amarante teve de esperar largos anos por este serviço público. Outro empreendimento de grande alcance para o desenvolvimento de Amarante era a instalação da Escola Agrícola, que os amarantinos ambicionavam a sediar na Quinta da Cerca de Baixo, em que Lago Cerqueira se empenhou movendo obstáculos. Mais uma vez a Ditadura o fez abortar e para sempre. Até o Regimento de Artilharia 4, instalado no Campo da Feira, foi transferido, a população bolchevizava a tropa, no dizer de um general. Mas outras obras e benefícios, que seria cansativo enumerar, se verificam e foram concluídos: no mercado de então, na Misericórdia, nos Correios, caminhos rurais, acessos à estação do caminho de ferro, ampliação do cemitério... É hoje ainda opinião generalizada que o nosso vinho verde não dá para envelhecer, que dois anos em garrafa será o máximo. Apontam-se razões do teor alcoólico, 7 a 8 graus, e que as qualidades organolépticas, as suas delicadezas de sabor, perfume e cor, se perdem rapidamente no tempo. Mas mais que isso, haverá motivos de outra ordem. Não só o minifúndio e o caseiro, como o proprietário de quintas, dificilmente poderão aguentar, por 10 ou mesmo 5 anos, a suspensão do fluxo financeiro anual, proveniente do vinho, base económica da exploração agrícola da nossa região. Fundamentalmente, havia e há, portanto, uma espécie de mito, a cobrir razões financeiras e de rotina. Lago Cerqueira homem de acção e empreendimentos, estudou, comparou e, em luta contra a rotina, com os meios da época, produziu marcas de vinho verde, como "Casa da Calçada", "Amarante" e "Cuvée de Choix" que resistiam ao tempo e envelheciam. Exportou para o Brasil e a própria França, passando a ser fornecedor oficial das Casas Civis das duas Presidências da República. Em Paris e não havia, então, as centenas de milhares dos emigrantes portugueses de hoje, abriu uma frequentada adega de vinho verde amarantino. Não se limitava só ao vinho. Tinha aguardentes de marcas muitos apreciadas, como "Aguardente Velha" ou "Tipo Fine Champagne". O conhaque, para o qual concorria a maçã camoesa tão tradicional, agora desaparecida do circuito de venda, rivalizava com os célebres conhaques franceses. Desde rótulo, de qualidade e requinte, - o registo internacional perpétuo na Suíça, das marcas comerciais para os seus tintos, brancos e claretes, - circuitos de venda e expansão, - tudo era cuidadosamente estudado, mesmo no exílio, longe da terra. Naturalmente que tinha colaboradores de qualidade e confiança pois não há general, sozinho, que ganhe qualquer batalha. Em qualquer empresa uma das grandes virtudes do gestor é precisamente preparar, escolher, dar meio e condições, fazer participar, colaboradores e empregados. Os proprietários de rotina diziam com ironia que, antes da pisa, mandava os lagareiros tomar banho de corpo inteiro e que só colhia as uvas lá para o Natal... Exageravam decerto, mas vinho verde de uvas maduras - era o lema de Largo Cerqueira. Não era dos produtores que não sabem as castas que têm nos choupos, bardos ou ramadas. Há 60 anos, como se verifica em "Les Vins du Portugal", "Os Vinho de Portugal", criticava com a sua experiência pessoal a legislação em vigor, dava indicações muito precisas sobre enxertias, castas mais indicadas para a boa qualidade, referia testes, análises químicas que praticava como enólogo, com experiência diversificada em países da Europa. Recentemente decreta-se e tomam-se medidas para preservar a qualidade dos vinhos verdes, que na nossa região é específico, é diferente. Quando é mesmo de Amarante, não se confunde, não admite mistificações. Lago Cerqueira há 60 anos estudava o assunto, analisava, tirava conclusões, possivelmente não coincidentes com as preconizadas hoje. (Naturalmente não caberá aqui discutir, tal assunto.) Para a genuinidade e expansão do vinho verde e seus derivados, redução de custos e circuito comercial de confiança, Lago Cerqueira, na década 20, preconizava, já então, cooperativas vinícolas bem organizadas. Algum dia há-de acontecer e naturalmente uma das virtudes da tão falada Regionalização será também o levantamento dos valores regionais. E não só na área das Letras, Artes e Ciências. Certamente no capítulo dos homens de acção na vinicultura e progresso de Amarante, o nome de António do Lago Cerqueira será sem rebuços, nem complexos, levantado como um dos seus maiores expoentes. Manuel Amaral - Escritor Amarantino |
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Dom Dinis "O Lavrador"(1279 - 1325)
A importância do Vinho entre os produtores agrícolas portugueses é anterior à própria nacionalidade. Ao contrário do que se passou com os cereais, foi uma cultura em constante expansão e muitos dos solos arroteados de novo foram ocupados por vinhas. A acção dos mercadores, adquirindo nos mercados locais o Vinho que traziam à cidade e que em parte exportavam, foi um factor que directamente impulsionou o crescimento da produção vinícola, que, aliás, tinha já as suas raízes na época romana. O rei D. Dinis instala uma política estável e centralizadora que se manterá à época de D. Fernando. Estabelece a paz com a "Concordata dos 40 artigos" (1289) que regula conflitos sem abdicar da sua soberania. Estabilidade monetária, com os lavramentos em ouro, prata e bolhão de D.Dinis. Fomenta-se e expandem-se excepcionalmente as feiras locais. As actividades agro-pecuárias crescem significativamente. Às lavouras fundamentais dos cereais, Vinho e azeite acrescem a produção frutícola e a apicultura. A Produção do Vinho. Há notícias do cultivo da vinha em todas as regiões do país. As informações são particularmente numerosas nos costumes da Guarda. Segundo eles, era proibído introduzir na vila Vinho de outras regiões, sob pena da mercadoria, dos animais que a transportassem e da multa de 100 maravedis. O morador que tivesse em sua casa Vinho de fora e não participasse aos alcaides pagava igualmente multa e era expulso por traidor. Os comerciantes que atravessassem a região com Vinho de fora não podiam pernoitar em povoados nem passar a menos de uma légua da Guarda. Todas estas providências visavam estimular a produção do Vinho em regiões do interior, numa época em que as vinhas já eram muito abundantes no litoral, em especial na região de Coimbra. Profundas transformações em muitos dominíos; da agricultura à cultura, do social ao artístico. A Universidade de Lisboa, o Cancioneiro da Ajuda, que reúne centenas de poesias galaico-portuguesas dos Séculos XII e XIII. ( Martin Codex, autor e trovador, -- hoje nome de marca de Alvarinho galego).
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José Relvas - O Vitivinicultor (1858 - 1929)
Herdeiro de uma vasta e opulenta casa agrícola, José de Mascarenhas Relvas nutriu, desde a juventude, grande interesse pela vitivinicultura. Podemos mesmo asseverar que, juntamente com a motivação para a arte e a causa pública, esta terá sido uma das suas actividades mais dilectas, desenvolvida com o afinco e a argúcia que caracterizaram todos os empreendimentos a que se entregou. Uma célebre caricatura da autoria de Malhoa alude precisamente à paixão com que rodeou tudo o que dizia respeito à exploração do vinho. Tendo fixado a residência na Quinta dos Patudos ainda na década de 1880, José Relvas reorganizou, a partir de Alpiarça, os diferentes sectores da actividade agrícola e industrial que seu pai, em desespero de causa, lhe confiara. A situação não era fácil, pois a irregular administração de Carlos Relvas conduzira a casa a um crónico deficit que punha em causa a sobrevivência, face aos credores, das propriedades mais importantes. Pouco a pouco, José Relvas foi liquidando os débitos e equilibrando as despesas e as receitas. A sua visão de lavrador esclarecido cedo lhe mostrou que a cultura extensiva da vinha deveria constituir, agora mais do que nunca, o principal esteio da empresa familiar, mas que importava complementá-la com a cuidadosa selecção das castas e a melhoria das condições de vinificação e armazenagem, sem descurar o calcanhar de Aquiles dos lavradores do Ribatejo: uma exploração comercial mais moderna, organizada de harmonia com as necessidades de um mercado em franca expansão. Familiarizado com os avanços da lavoura europeia e americana, introduziu na Quinta dos Patudos novas técnicas agrícolas, não descurando o bem-estar e a protecção social das muitas dezenas de trabalhadores a seu cargo. Preocupou-se também com a produção de vinhos de qualidade padronizada, de modo a fidelizar uma clientela sempre volúvel. Ao mesmo tempo, dedicou-se ao fomento do associativismo agrário, ante-câmara da futura actividade política. Mas o seu rasgo de génio consistiu na capacidade de, através da Adega Regional do Ribatejo, idealizar um sistema eficiente para o abastecimento directo de Lisboa com os néctares de Alpiarça, dispensando todo uma gama de intermediários que crucificavam, com comissões excessivas, os proprietários ribatejanos. Esta inovação veio a revelar-se tão ajustada que, nos derradeiros anos do regime monárquico, a produção da Quinta dos Patudos e suas anexas aumentou enormemente e passou a ter os excedentes dirigidos para os mercados africano e brasileiro, de onde chegavam divisas fortes. Foi graças à noção empresarial do negócio do vinho em larga escala, defendida com energia por José Relvas e outros grandes lavradores de Alpiarça, Almeirim e Chamusca junto dos poderes centrais, em nome da lavoura ribatejana, que Portugal incrementou de modo substancial as suas exportações. Foram também os proventos obtidos com a moderna vitivinicultura que permitiram, em grande parte, a construção do solar dos Patudos e a aquisição da sua magnífica (e de certo modo única) colecção de obras de arte. José António Falcão, Director da Casa-Museu dos Patudos
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Louis Pasteur(1822 - 1895)
Célebre químico, biólogo e académico francês efectuou notáveis trabalhos acerca da cristalização, fermentações produzidas pelo desenvolvimento de gérmes, doença do bicho-da-seda, profilaxia da raiva e do carbúnculo, as doenças contagiosas em geral. As investigações de Pasteur fizeram uma verdadeira revolução na arte de curar, precisando os modos de contágio e as profilaxias correspondentes. A anti-sepsia e a assepsia daí derivam, sem esquecer a pastorização de diversos produtos onde se inclui o Vinho, assim como o estudo que realizou no seu envelhecimento, quer por oxidação, quer por redução. Foi considerado o pai da enologia moderna. Pasteur, cujo jubileu, em 1895, deu motivo, na Sorbonne, a uma importante manifestação científica, foi um dos mais ilustres sábios do século XIX e um grande benfeitor da Humanidade. Os seus restos estão em Paris, na cripta do Instituto que tem o seu nome. |
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Sebastião José de Carvalho (1835 - 1905)
1º Visconde de Chanceleiros, Sebastião José de Carvalho, Homem de grande talento e elevadas qualidades morais, faleceu há quase 100 anos; no entanto, a sua vida e obra são, ainda hoje, referências obrigatórias nos anais da viticultura nacional, e o seu nome e memória são recordados com respeito e veneração, nas terras onde viveu. Nasceu a onze de Janeiro de 1835 em Cortegana, concelho de Alenquer, na Quinta do Rocio, propriedade de seus pais, Manuel António de Carvalho e Dona Maria José Carvalhosa Henriques. Iniciou os seus estudos em Lisboa, partindo anos depois para Coimbra, onde se formou com o grau de bacharel na Faculdade de Direito. Seguindo as pisadas de seu pai na vida pública, é eleito deputado pelo círculo de Torres Vedras, com vinte e quatro anos de idade. Começava assim uma longa e brilhante carreira política: Par do Reino, Governador civil de Lisboa, Ministro das Obras Públicas e Ministro Plenipotenciário de Portugal na Bélgica. Em 1865, o Rei D. Luís concedeu-lhe o título de Visconde. O Brasil e a Bélgica atríbuem-lhe honrarias e condecorações. Como estadista, a sua honestidade e inteireza de carácter constituíram um exemplo ímpar no seu tempo: o apreço por estes predicados tão raros ganhou dimensão nacional, e sobre ele se escreveu na época: " ....o Visconde de Chanceleiros, tem o culto respeitosíssimo de todo o país, que se vê encarnadas na pessoa do prestimoso titular, as mais puras qualidades e os mais nobres sentimentos de um português de boa lei". Como orador, teve este homem um grande sucesso. Segundo os contemporâneos, as suas palavras entusiasmavam e arrebatavam, merecê de uma grande espontaneidade e colorido. Tais qualidades trouxeram-lhe grande prestígio e inúmeros triunfos parlamentares. Um comentador político do seu tempo escrevia assim a propósito das suas intervebções na Câmara dos Pares do Reino".... ouvir o Senhor Visconde é experimentar uma sensação que mal se pode definir. Ora nos arrasta, ora nos deslumbra,,ora nos provoca frémitos de indignação ou de entusiasmo; enleia-nos sempre e domina-nos por completo; fica assim um auditório de centenas de pessoas, inteiramente cativo e avassalado pela sua priveligiada inspiração." Já quase no fim da sua actividade política, ficaram celebrizados nos registos parlamentares, os seus discursos de 30 e 31 de Dezembro de 1893. Mas, este apreciado estadista e notável tribuno, nunca deixou adormecer dentro de si os apelos do homem nascido no campo, e sempre que a sua vida pública lhe permita, regressava ao seu retiro, à sua querida Quinta do Rocio e às suas tarefas de agricultor esclarecido e empreendedor; também neste domínio foi notável na sua obra. Ter sido "nado e criado" no fecundo concelho de Alenquer, "terra de vinhedos e vinhos" na feliz expressão do seu amigo e admirador o médico e cientista Rodrigo de Boaventura Pereira, explica o facto do Visconde de Chanceleiros ser também um grande viticultor do seu tempo. Mercê de técnicas agrícolas muito apuradas e de granjeios cuidadosos, as suas propriedades eram exemplo e modelo de produtividade; as suas opulentas vinhas eram, com frequência, visitadas e admiradas por personalidades notáveis ligadas à viticultura portuguesa e estrangeira. No entanto, tempos muito difíceis esperavam estes vinhedos florescentes e férteis. De facto, desde 1870 que uma nova e perigosa doença, a filoxera, devastava as vinhas portuguesas. Primeiro no norte, na zona duriense e depois numa destrutiva marcha galopante para o sul, até ocupar toda a área nacional. Em terras de Alenquer, as primeiras nódoas desta grave moléstia surgem no Verão de 1882. Em quatro anos a terrível praga estende-se por quase todos os campos concelhios. A grande agressividade da filoxera e a pouca eficácia dos processos de combates usados, levam muitos dos proprietários da região ao desespero e à ruína; "....as dificuldades da luta, a descrença, o terror mesmo, conduzem os viticultores à desconfiança e ao desalento....", escreve um jornalista a propósito desta crise. É neste clima de catástrofe, que a personalidade forte de Sebastião José de Carvalho se eleva e agiganta. Afirma um agricultor do seu tempo: "No meio deste desânimo geral um homem corajoso: o Visconde de Chanceleiros. Ele tem sido um lutador estreme, sempre alerta na refrega do combate....". Com as suas vinhas profundamente atingidas pela filoxera, recorre aos limitados meios que a ciência lhe oferece. Experimenta os tratamentos químicos com a exactidão e os cuidados exigidos. Introduz mesmo algumas alterações técnicas, ditadas pelo seu bom senso de velho agricultor. Lamentavelmente os resultados não são animadores. A produção das vinhas baixa dramaticamente, "passando das 5.000 pipas anuais para as 2.000 e depois para as 100 nos últimos anos da sua vida" Não se poupando nem a trabalhos nem a despesas, tenta ainda outras soluções. Assim, no Inverno de 1887 submerge as suas vinhas de várzea "com as águas dos regatos que lhe corriam próximo". No ano seguinte, estas cepas já apresentavam "boa frutificação sem que as raízes estivessem infestadas de filoxera"..." Os resultados agora mais animadores, não são ainda os desejados. Havia que lançar-se mão da última esperança, havia que percorrer o último caminho, o mais difícil, o mais discutível e o mais dispendioso: o replantar as depauperadas vinhas com bacelos americanos. O espanto que tal iniciativa produziu foi enorme. " A atitude do Visconde de Chanceleiros foi classificada de arrojo sem limites, e todos viram nela um completo desastre". Nada, nem ninguém desvia Chanceleiros deste percurso. Reconstitui as suas vinhas e espera pelos resultados.... Finalmente, ao cabo de tantos esforços, tudo indica que o flagelo da filoxera está debelado. O exemplo foi então seguido por todos os agricultores. Sebastião José de Carvalho que se arruinara nesta luta sem quartel, tornara-se um benemérito. "O país devia-lhe a salvação da sua principal riqueza". Em 1895 foi convidado pela Real Associação Central da Agricultura Portuguesa, para participar no Primeiro Congresso Vitícola Nacional. As notáveis comunicações que então apresentou, merecem o aplauso de todos os congressistas, e justificam a sua nomeação para Presidente Honorário do Congresso. O Visconde de Chanceleiros recebia assim das mãos dos viticultores portuguesas, uma honrosa distinção. Anos depois, em Dezembro de 1904, a Câmara Municipal de Alenquer inaugurou em sessão solena, o retrato deste ilustre cidadão, "oferecido por um grupo de amigos". Era esta, a derradeira homenagem prestada em vida a um homem " que empobreceu salvando as suas vinhas", encorajando com o seu exemplo os agricultores portugueses, a replantarem os seus vinhedos destruídos pela filoxera. Poucos meses depois, a 14 de Junho de 1905, na sua Quinta do Rocio, morria tranquilamente o Visconde de Chanceleiros; tinha setenta anos de idade. 03 de Novembro de 1993, Adega Cooperativa de Labrugeira, CRL. Os Vinhos do Visconde de Chanceleiros estão à venda na LusaWines.com |
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Mitologia |
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Dionísio - "Baco" deus grego da vinha e do vinho.
Dionísio, filho de Zeus, deus grego da vinha e do vinho, contribuiu largamente para enriquecer o folclore, e o vinho jogou um papel considerável no desenvolvimento da civilização helénica. Representado como criança com a fronte ornamentada de chifres e coroado de serpentes, Dionísio teve vários disfarces no decurso da sua existência: touro, carneiro, veado, cabrito, leão e tigre, virgem, jovem e velho. Os Gregos representaram-nos sob diversos aspectos, mais frequentemente como um pandego sólido e barbudo, geralmente coroado de galhardo ou então sob o traço de um adolescente delicado e imberbe. Até no Pater Liber dos Romanos era raro encontrar o deus do vinho com o ar beberrão flácido e degenerado, afável pelo alcoolismo. A cronologia das viagens de Dionísio são bastante graciosas, parecendo ter começado primeiramente por voar em direcção ao Egipto em companhia de uma matilha impetuosa de sátiras --- músicos de orelhas pontiagudas e pés bifurcados --- e de manadas de tremendas fêmeas vestidas de pele de raposa e brandindo paus enlaçados com parras. Bem acolhido no Egipto, fez aí a plantação da vinha antes de voltar à Grécia e fundar o culto do vinho. Os rituais eram primeiramente empregnados de violência. Ao clarão das tochas, os adeptos de Dionísio, vestidos com peles de bode que faziam dele seres do outro mundo, misturavam-se com as sacerdotizas atavidas ridiculamente com os despojos das raposas. Entregavam-se então a secretas ao som de lascivos encantamentos acompanhados à flauta, instrumento favorito dos deuses. Estas manifestações dionisíacas acabavam frequentemente em sangue.Foi assim que Orfeu, o doce poeta, lhe arrancara os membros, um após outro, por se ter recusado a adorar o deus do vinho. Depois, pouco a pouco, o evoluir da civilização helénica sobrepôs-se à selvajaria dos ritos dionisíacos. Foi em Tebas e em Delfos que a tradição das cerimoniosas orgias persistiu por mais tempo, enquanto que noutras partes os divertimentos tomaram um ar mais bucólico. As festas tinham lugar em Setembro, no momento das vindimas ou então em Janeiro, época em que era necessário conciliar as boas graças misteriosas da fermentação com medo que os demónios não permitissem transformar o vinho. Algumas destas assembleias dionisíacas mudavam de finalidade por ocasião dos concursos cénicos entre tribos rivais, dando assim um vigoroso impulso ao teatro clássico grego. No século V a. C. o Estado organizava festas do vinho, nacionais e regionais, campestres e urbanas; foi durante estas festas realizadas em Icaria, Atenas e noutras grandes cidades que nasceram as obras-primas do teatro grego. O deus do vinho tornou-se também o protector da música e da dança e finalmente de todas as artes. Dionísio reunia os outros deuses debaixo dos frisos do Partenon; as divindades maiores não podiam ultrapassar o número de 12 e foi assim que ele destronou Héstia, a deusa do lar; várias representações foram consagradas a Dionísio, cujo busto presidia as sessões e cujos sacerdotes tinham direito aos lugares de honra. Só depois do espectáculo tinha lugar uma outra prova, mais directamente ligada às actividades do deus protector: quem primeiramente esvaziava uma taça de vinho novo. |
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Lenda do Vinho(0000 - 7000)
Uma lenda grega atribui a descoberta da videira a um pastor, Estáfilo, que, ao procurar uma cabra perdida, a foi encontrar comendo parras. Colhendo os frutos dessa planta, até então desconhecida, levou-os ao seu patrão, Oinos, que deles extraiu um sumo cujo sabor melhorou com o tempo. Por isso, em grego, a videira designa-se por staphyle, e o vinho por oinos. A mitologia romana atribui a Saturno a introdução das primeiras videiras; na Península Ibérica, ela era imputada a Hércules. Na Pérsia, a origem do vinho era também lendária: conta-se que um dia, quando o rei Djemchid se encontrava refastelado à sombra da sua tenda, observando o treino dos seus archeiros, foi o seu olhar atraído por uma cena que se desenrolava próximo: uma grande ave contorcia-se envolvida por uma enorme serpente, que lentamente a sufocava. O rei deu imediatamente ordem a um archeiro para que atirasse. Um tiro certeiro fez penetrar a flecha na cabeça da serpente, sem que a ave fosse atingida. Esta, liberta, voou até aos pés do soberano, e aí deixou cair umas sementes, que este mandou semear. Delas nasceu uma viçosa planta que deu frutos em abundância. O rei bebia frequentemente o sumo desses frutos. Um dia, porém, achou-o amargo e mandou pô-lo de parte; alguns meses mais tarde, uma bela escrava, favorita do rei, encontrando-se possuída de fortes dores de cabeça, desejou morrer. Tendo descoberto o sumo posto de parte, e supondo-o venenoso, bebeu dele. Dormiu (o que não conseguia havia muitas noites) e acordou curada e feliz. A nova chegou aos ouvidos do rei, que promoveu o vinho à categoria de bebida do seu povo, baptizando-o Darou-é-Shah « o remédio do rei ». Quando Cambises, descendente de Djemchid, fundou Persépolis, os viticultores plantaram vinhas em redor da cidade, as quais deram origem ao célebre vinho de Shiraz. A vinha era objecto de enormes cuidados, e o mosto fermentava em grandes recipientes de 160 litros, os guarabares. Foi este vinho que ajudou a dar coragem aos soldados de Cambises na conquista do fabuloso Egipto! (In Ementa de Portugal) |
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O Vinho e a Arte de Comer
Uma das mais belas narrativas da Bíblia conta que Noé, após o dilúvio universal, plantou a vinha e fez o vinho. Provou a bebida e avançou o sinal. Tomou um porre literalmente bíblico. Gritou, tirou a roupa e desmaiou. O filho Cam o encontrou assim, "tendo à mostra as suas vergonhas". Foi a primeira menção da Bíblia a vinho. Depois, as referências se multiplicaram. A bebida é mencionada 450 vezes no Antigo e Novo Testamento. Michelangelo Buonarroti (1475-1564) se inspirou na embriaguez de Noé para pintar um belíssimo afresco, com esse nome, no teto da Capela Sistina, no Vaticano. A tradição acredita que desde o tempo do patriarca - segundo a Bíblia ele viveu 950 anos - usa-se o vinho para cozinhar. Como ainda hoje sucede, servia para amaciar, aromatizar e conferir sabor às carnes duras. Também ajudava a disfarçar o cheiro forte e desagradável das caças da época. Portanto, tinha emprego crucial. A Bíblia informa igualmente que Noé foi o primeiro homem a receber permissão divina para comer carne. Ao longo dos séculos, o vinho permaneceu importante ingrediente na cozinha. O poeta latino Horácio (65 a.C. - 8 d.C.), autor das Odes, nas quais celebra o amor e as boas emoções da vida, deixou uma receita de molho que combina vinho, azeite e salmoura. Os bizantinos, cujo império se estendeu entre os séculos IV e XV, tinham uma preparação assemelhada, na qual acrescentavam pimenta, canela e nardo (planta herbácea originária da Ásia). A maioria das receitas inventadas por Taillevent, autor do primeiro tratado de cozinha em língua francesa, escrito no século XIV e publicado 100 anos depois com o título Le Viandier, recorre ao vinho como tempero. Santa Joana d'Arc (1412-1431), heroína francesa da Guerra dos Cem Anos, misturava-o na sopa diária, sobretudo quando se encontrava no campo de batalha. O escritor Alexandre Dumas (1802-1070), autor de Os Três Mosqueteiros, que também escreveu o Grande Dicionário de Cozinha, com 1 152 páginas, fazia o mesmo. Chamava o vinho de "parte intelectual" das receitas. Segundo ele, "as carnes não são mais do que o lado material". Todos os países que produzem vinho usam-no para beber e cozinhar. É matéria-prima polivalente. |
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O vinho nos tempos do Antigo Testamento.
Nm 6.3 "de vinho e de bebida forte se apartará; vinagre de vinho ou vinagre de bebida forte não beberá; nem beberá alguma beberagem de uvas; nem uvas frescas nem secas comerá."
PALAVRAS HEBRAICAS PARA "VINHO" De um modo geral, há duas palavras hebraicas traduzidas por "vinho" na Bíblia. (1) A primeira palavra, a mais comum, é yayin, um termo genérico usado 141 vezes no AT para indicar vários tipos de vinho fermentado ou não-fermentado (ver Ne 5.18, que fala de "todo o vinho [yayin]" = todos os tipos). (a) Por um lado, yayin aplica-se a todos os tipos de suco de uva fermentado (Gn 9.20,21; 19.32-33; 1Sm 25.36,37; Pv 23.30,31). Os resultados trágicos de tomar vinho fermentado aparecem em vários trechos do AT, notadamente Pv 23.29-35 (ver a próxima seção). (b) Por outro lado, yayin também se usa com referência ao suco doce, não-fermentado, da uva. Pode referir-se ao suco fresco da uva espremida. Isaías profetiza: "já o pisador não pisará as uvas [yayin] nos lagares" (Is 16.10); semelhantemente, Jeremias diz: "fiz que o vinho [yayin] acabasse nos lagares; já não pisarão uvas com júbilo" (Jr 48.33). Jeremias até chama de yayin o suco ainda dentro da uva (Jr 40.10, 12). Outra evidência que yayin, às vezes, refere-se ao suco não-fermentado da uva temos em Lamentações, onde o autor descreve os nenês de colo clamando às mães, pedindo seu alimento normal de "trigo e vinho" (Lm 2.12). O fato do suco de uva não-fermentado poder ser chamado "vinho" tem o respaldo de vários eruditos. A Enciclopédia Judaica (1901) declara: "O vinho fresco antes da fermentação era chamado yayin-mi-gat [vinho de tonel] (Sanh, 70a)". Além disso, a Enciclopédia Judaica (1971) declara que o termo yayin era usado para designar o suco de uva em diferentes etapas, inclusive "o vinho recém-espremido antes da fermentação." O Talmude Babilônico atribui ao rabino Hiyya uma declaração a respeito de "vinho [yayin] do lagar" (Baba Bathra, 97a). E em Halakot Gedalot consta: "Pode-se espremer um cacho de uvas, posto que o suco da uva é considerado vinho [yayin] em conexão com as leis do nazireado" (citado por Louis Ginzberg no Almanaque Judaico Americano, 1923). Para um exame de oinos, o termo equivalente no grego do NT, à palavra hebraica yayin, ver os estudos O VINHO NOS TEMPOS DO NOVO TESTAMENTO (1) e (2).
(2) A outra palavra hebraica traduzida por "vinho" é tirosh, que significa "vinho novo" ou "vinho da vindima". Tirosh ocorre 38 vezes no AT; nunca se refere à bebida fermentada, mas sempre ao produto não-fermentado da videira, tal como o suco ainda no cacho de uvas (Is 65.8), ou o suco doce de uvas recém-colhidas (Dt 11.14; Pv 3.10; Jl 2.24). Brown, Driver, Briggs (Léxico Hebraico-Inglês do Velho Testamento) declaram que tirosh significa "mosto, vinho fresco ou novo". A Enciclopédia Judaica (1901) diz que tirosh inclui todos os tipos de sucos doces e mosto, mas não vinho fermentado". Tirosh tem "bênção nele" (Is 65.8); o vinho fermentado, no entanto, "é escarnecedor" (Pv 20.1) e causa embriaguez (ver Pv 23.31 nota).
(3) Além dessas duas palavras para "vinho", há outra palavra hebraica que ocorre 23 vezes no AT, e freqüentemente no mesmo contexto — shekar, geralmente traduzida por "bebida forte" (e.g., 1Sm 1.15; Nm 6.3). Certos estudiosos dizem que shekar, mais comumente, refere-se a bebida fermentada, talvez feita de suco de fruto de palmeira, de romã, de maçã, ou de tâmara. A Enciclopédia Judaica (1901) sugere que quando yayin se distingue de shekar, aquele era um tipo de bebida fermentada diluída em água, ao passo que esta não era diluída. Ocasionalmente, shekar pode referir-se a um suco doce, não-fermentado, que satisfaz (Robert P. Teachout: "O Uso de Vinho no Velho Testamento", dissertação de doutorado em Teologia, Seminário Teológico Dallas, 1979). Shekar relaciona-se com shakar, um verbo hebraico que pode significar "beber à vontade", além de "embriagar". Na maioria dos casos, saiba-se que quando yayin e shekar aparecem juntos, formam uma única figura de linguagem que se refere às bebidas embriagantes.
A POSIÇÃO DO ANTIGO TESTAMENTO SOBRE O VINHO FERMENTADO
Em vários lugares o AT condena o uso de yayin e shekar como bebidas fermentadas.
(1) A Bíblia descreve os maus efeitos do vinho embriagante na história de Noé (Gn 9.20-27). Ele plantou uma vinha, fez a vindima, fez vinho embrigante de uva e bebeu. Isso o levou à embriaguez, à imodéstia, à indiscrição e à tragédia familiar em forma de uma maldição imposta sobre Canaã. Nos tempos de Abraão, o vinho embriagante contribuiu para o incesto que resultou em gravidez nas filhas de Ló (Gn 19.31-38).
(2) Devido ao potencial das bebidas alcoólicas para corromper, Deus ordenou que todos os sacerdotes de Israel se abstivessem de vinho e doutras bebidas fermentadas, durante sua vida ministerial. Deus considerava a violação desse mandamento suficientemente grave para motivar a pena de morte para o sacerdote que a cometesse (Lv 10.9-11).
(3) Deus também revelou a sua vontade a respeito do vinho e das bebidas fermentadas ao fazer da abstinência uma exigência para todos que fizessem voto de nazireado (ver a próxima seção).
(4) Salomão, na sabedoria que Deus lhe deu, escreveu: "O vinho é escarnecedor, e a bebida forte, alvoroçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio" (Pv 20.1 nota). As bebidas alcoólicas podem levar o usuário a zombar do padrão de justiça estabelecido por Deus e a perder o autocontrole no tocante ao pecado e à imoralidade. (5) Finalmente, a Bíblia declara de modo inequívoco que para evitar ais e pesares e, em lugar disso, fazer a vontade de Deus, os justos não devem admirar, nem desejar qualquer vinho fermentado que possa embriagar e viciar (ver Pv 23.29-35 notas).
OS NAZIREUS E O VINHO
O elevado nível de vida separada e dedicada a Deus, dos nazireus, devia servir como exemplo a todo israelita que quisesse assim fazer (ver Nm 6.2 nota). Deus deu aos nazireus instruções claras a respeito do uso do vinho.
(1) Eles deviam abster-se "de vinho e de bebida forte" (6.3; ver Dt 14.26 nota); nem sequer lhes era permitido comer ou beber qualquer produto feito de uvas, quer em forma líquida, quer em forma sólida. O mais provável é que Deus tenha dado esse mandamento como salvaguarda ante a tentação de tomar bebidas inebriantes e ante a possibilidade de um nazireu beber vinho alcoólico por engano (6.3-4). Deus não queria que uma pessoa totalmente dedicada a Ele se deparasse com a possibilidade de embriaguez ou de viciar-se (cf. Lv 10.8-11; Pv 31.4,5). Daí, o padrão mais alto posto diante do povo de Deus, no tocante às bebidas alcoólicas, era a abstinência total (6.3-4).
(2) Beber álcool leva, freqüentemente, a vários outros pecados (tais como a imoralidade sexual ou a criminalidade). Os nazireus não deviam comer nem beber nada que tivesse origem na videira, a fim de ensinar-lhes que deviam evitar o pecado e tudo que se assemelhasse ao pecado, que leva a ele, ou que tenta a pessoa a cometê-lo.
(3) O padrão divino para os narizeus, da total abstinência de vinho e de bebidas fermentadas, era rejeitado por muitos em Israel nos tempos de Amós. Esse profeta declarou que os ímpios "aos nazireus destes vinho a beber" (ver Am 2.12 nota). O profeta Isaías declara por sua vez: "o sacerdote e o profeta erram por causa da bebida forte; são absorvidos do vinho, desencaminham-se por causa da bebida forte, andam errados na visão e tropeçam no juízo. Porque todas as suas mesas estão cheias de vômitos e de imundícia; não há nenhum lugar limpo" (Is 28.7,8). Assim ocorreu, porque esses dirigentes recusaram o padrão da total abstinência estabelecido por Deus (ver Pv 31.4,5 nota).
(4) A marca essencial do nazireado — i.e., sua total consagração a Deus e aos seus padrões mais elevados — é um dever do crente em Cristo (cf. Rm 12.1; 2Co 6.17; 7.1). A abstinência de tudo quanto possa levar a pessoa ao pecado, estimular o desejo por coisas prejudiciais, abrir caminho à dependência de drogas ou do álcool, ou levar um irmão ou irmã a tropeçar, é tão necessário para o crente hoje quanto o era para o nazireu dos tempos do AT (ver 1Ts 5.6 nota; Tt 2.2 nota; ver os estudos O VINHO NOS TEMPOS DO NOVO TESTAMENTO (1) e (2) |
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O vinho nos tempos do N.T.
Lc 7.33,34 “Porque veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos pecadores.” VINHO: FERMENTADO OU NÃO FERMENTADO? Segue-se um exame da palavra bíblica mais comumente usada para vinho. A palavra grega para “vinho”, em Lc 7.33, é oinos. Oinos pode referir-se a dois tipos bem diferentes de suco de uva: (1) suco não fermentado, e (2) vinho fermentado ou embriagante. Esta definição apóia-se nos dados abaixo. (1) A palavra grega oinos era usada pelos autores seculares e religiosos, antes da era cristã e nos tempos da igreja primitiva, em referência ao suco fresco da uva (ver Aristóteles, Metereologica, 387.b.9-13). (a) Anacreontes (c. de 500 a.C.) escreve: “Esprema a uva, deixe sair o vinho [oinos]” (Ode 5). (b) Nicandro (século II a.C.) escreve a respeito de espremer uvas e chama de oinos o suco daí produzido (Georgica, fragmento 86). (c) Papias (60-130 d.C.), um dos pais da igreja primitiva, menciona que quando as uvas são espremidas produzem “jarros de vinho [oinos]” (citado por Ireneu, Contra as Heresias, 5.33.3–4). (d) Uma carta em grego escrita em papiro (P. Oxy. 729; 137 d.C.), fala de “vinho [oinos] fresco, do tanque de espremer” (ver Moulton e Milligan, The Vocabulary of the Greek Testament, p. 10). (e) Ateneu (200 .C.) fala de um “vinho [oinos] doce”, que “não deixa pesada a cabeça” (Ateneu, Banquete, 1.54). Noutro lugar, escreve a respeito de um homem que colhia uvas “acima e abaixo, pegando vinho [oinos] no campo” (1.54). Para considerações mais pormenorizadas sobre o uso de oinos pelos escritores antigos, ver Robert P. Teachout: “O Emprego da Palavra ‘Vinho’ no Antigo Testamento”. (Dissertação de Th.D. no Seminário Teológico de Dallas, 1979).
(2) Os eruditos judeus que traduziram o AT do hebraico para o grego c. de 200 a.C. empregaram a palavra oinos para traduzir várias palavras hebraicas que significam vinho (ver o estudo VINHO NOS TEMPOS DO ANTIGO TESTAMENTO). Noutras palavras, os escritores do NT entendiam que oinos pode referir-se ao suco de uva, com ou sem fermentação.
(3) Quanto a literatura grega secular e religiosa, um exame de trechos do NT também revela que oinos pode significar vinho fermentado, ou não fermentado. Em Ef 5.18, o mandamento: “não vos embriagueis com vinho [oinos]” refere-se ao vinho alcoólico. Por outro lado, em Ap 19.15 Cristo é descrito pisando o lagar. O texto grego diz: “Ele pisa o lagar do vinho [oinos]”; o oinos que sai do lagar é suco de uva (ver Is 16.10 nota; Jr 48.32,33 nota). Em Ap 6.6, oinos refere-se às uvas da videira como uma safra que não deve ser destruída. Logo, para os crentes dos tempos do NT, “vinho” (oinos) era uma palavra genérica que podia ser usada para duas bebidas distintivamente diferentes, extraídas da uva: o vinho fermentado e o não fermentado.
(4) Finalmente, os escritores romanos antigos explicam com detalhes vários processos usados para tratar o suco de uva recém-espremido, especialmente as maneiras de evitar sua fermentação. (a) Columela (Da Agricultura, 12.29), sabendo que o suco de uva não fermenta quando mantido frio (abaixo de 10 graus C.) e livre de oxigênio, escreve da seguinte maneira: “Para que o suco de uva sempre permaneça tão doce como quando produzido, siga estas instruções: Depois de aplicar a prensa às uvas, separe o mosto mais novo [i.e., suco fresco], coloque-o num vasilhame (amphora) novo, tampe-o bem e revista-o muito cuidadosamente com piche para não deixar a mínima gota de água entrar; em seguida, mergulhe-o numa cisterna ou tanque de água fria, e não deixe nenhuma parte da ânfora ficar acima da superfície. Tire a ânfora depois de quarenta dias. O suco permanecerá doce durante um ano” (ver também Columela: Agricultura e Árvores; Catão: Da Agricultura). O escritor romano Plínio (século I d.C.) escreve: “Tão logo tiram o mosto [suco de uva] do lagar, colocam-no em tonéis, deixam estes submersos na água até passar a primeira metade do inverno, quando o tempo frio se instala” (Plínio, História Natural, 14.11.83). Este método deve ter funcionado bem na terra de Israel (ver Dt 8.7; 11.11,12; Sl 65.9-13). (b) Outro método de impedir a fermentação das uvas é fervê-las e fazer um xarope (para mais detalhes, ver o estudo O VINHO NOS TEMPOS DO NOVO TESTAMENTO (2)). Historiadores antigos chamavam esse produto de “vinho” (oinos). O Cônego Farrar (Smith’s Bible Dictionary, p. 747) declara que “os vinhos assemelhavam-se mais a xarope; muitos deles não eram embriagantes”. Ainda, O Novo Dicionário da Bíblia , observa que “sempre havia meios de conservar doce o vinho durante o ano inteiro”.
O USO DO VINHO NA CEIA DO SENHOR
Jesus usou uma bebida fermentada ou não fermentada de uvas, ao instituir a Ceia do Senhor (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.17-20; 1Co 11.23-26)? Os dados abaixo levam à conclusão de que Jesus e seus discípulos beberam no dito ato suco de uva não fermentado.
(1) Nem Lucas nem qualquer outro escritor bíblico emprega a palavra “vinho” (gr. oinos) no tocante à Ceia do Senhor. Os escritores dos três primeiros Evangelhos empregam a expressão “fruto da vide” (Mt 26.29; Mc 14.25; Lc 22.18). O vinho não fermentado é o único “fruto da vide” verdadeiramente natural, contendo aproximadamente 20% de açúcar e nenhum álcool. A fermentação destrói boa parte do açúcar e altera aquilo que a videira produz. O vinho fermentado não é produzido pela videira.
(2) Jesus instituiu a Ceia do Senhor quando Ele e seus discípulos estavam celebrando a Páscoa. A lei da Páscoa em Êx 12.14-20 proibia, durante a semana daquele evento, a presença de seor (Êx 12.15), palavra hebraica para fermento ou qualquer agente fermentador. Seor, no mundo antigo, era freqüentemente obtido da espuma espessa da superfície do vinho quando em fermentação. Além disso, todo o hametz (i.e., qualquer coisa fermentada) era proibido (Êx 12.19; 13.7). Deus dera essas leis porque a fermentação simbolizava a corrupção e o pecado (cf. Mt 16.6,12; 1Co 5.7,8). Jesus, o Filho de Deus, cumpriu a lei em todas as suas exigências (Mt 5.17). Logo, teria cumprido a lei de Deus para a Páscoa, e não teria usado vinho fermentado.
(3) Um intenso debate perpassa os séculos entre os rabinos e estudiosos judaicos sobre a proibição ou não dos derivados fermentados da videira durante a Páscoa. Aqueles que sustentam uma interpretação mais rigorosa e literal das Escrituras hebraicas, especialmente Êx 13.7, declaram que nenhum vinho fermentado devia ser usado nessa ocasião.
(4) Certos documentos judaicos afirmam que o uso do vinho não fermentado na Páscoa era comum nos tempos do NT. Por exemplo: “Segundo os Evangelhos Sinóticos, parece que no entardecer da quinta-feira da última semana de vida aqui, Jesus entrou com seus discípulos em Jerusalém, para com eles comer a Páscoa na cidade santa; neste caso, o pão e o vinho do culto de Santa Ceia instituído naquela ocasião por Ele, como memorial, seria o pão asmo e o vinho não fermentado do culto Seder” (ver “Jesus”. The Jewish Encyclopaedia, edição de 1904. V.165).
(5) No AT, bebidas fermentadas nunca deviam ser usadas na casa de Deus, e um sacerdote não podia chegar-se a Deus em adoração se tomasse bebida embriagante (Lv 10.9 nota). Jesus Cristo foi o Sumo Sacerdote de Deus do novo concerto, e chegou-se a Deus em favor do seu povo (Hb 3.1; 5.1-10).
(6) O valor de um símbolo se determina pela sua capacidade de conceituar a realidade espiritual. Logo, assim como o pão representava o corpo puro de Cristo e tinha que ser pão asmo (i.e., sem a corrupção da fermentação), o fruto da vide, representando o sangue incorruptível de Cristo, seria melhor representado por suco de uva não fermentado (cf. 1Pe 1.18,19). Uma vez que as Escrituras declaram explicitamente que o corpo e sangue de Cristo não experimentaram corrupção (Sl 16.10; At 2.27; 13.37), esses dois elementos são corretamente simbolizados por aquilo que não é corrompido nem fermentado.
(7) Paulo determinou que os coríntios tirassem dentre eles o fermento espiritual, i.e., o agente fermentador “da maldade e da malícia”, porque Cristo é a nossa Páscoa (1Co 5.6-8). Seria contraditório usar na Ceia do Senhor um símbolo da maldade, i.e., algo contendo levedura ou fermento, se considerarmos os objetivos dessa ordenança do Senhor, bem como as exigências bíblicas para dela participarmos.
Para mais sobre o vinho nos tempos do NT, ver o estudo O VINHO NOS TEMPOS DO NOVO TESTAMENTO |
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Dona Antónia Adelaide FERREIRA(1811 - 1896)
Falar do Vinho do Porto e do Douro sem falar de D. Antónia é quase impossível. Personagem da vida do Douro e do Vinho do Porto, conhecida por "Ferreirinha", nasceu na Régua em 1811. Mulher determinada e corajosa, construiu um enorme império durante o século XIX. Era uma pessoa que gostava de ajudar os mais pobres, que teve a coragem de desafiar homens poderosos e serviu de exemplo e orgulho das gentes Durienses. A história dos Ferreiras começa com Bernardo Ferreira, proprietário no Douro, que sob pena de prisão foi obrigado pelo Marquês de Pombal a cultivar umas terras denominadas de Montes de Rodo, convertendo-as em bonitas quintas. Com este tipo de medidas, não muito correctas, o Marquês de Pombal conseguiu que muitos proprietários aumentassem os seus bens agrícolas. Foi morto pelas tropas de Napoleão, pois estas confundiram-no com um desertor, quando lhes dirigiu a palavra num impecável francês. Deixou 3 filhos, José, António e Francisco. José e António tiveram respectivamente uma filha, Antónia Adelaide, e um filho, António Bernardo, que casaram em 1834. Deste casamento têm 3 filhos, Maria d`Assunção (mais tarde condessa de Azambuja), um rapaz, de seu nome António Bernardo, e Maria Virgínia (tendo morrido em menina). D. Antónia ficaria viúva com apenas 32 anos e voltaria casar em 1856, durante o seu "exílio" em Londres, com Francisco José da Silva Torres. Após a morte do seu primeiro marido, a coragem desta senhora não pára: fez grandes plantações de vinha no Douro, obras de benfeitoria, contratou colaboradores, construiu armazéns, comprou quintas importantes (Aciprestes, Porto, Mileu) e fundou outras, como o Monte Meão, tornando-se figura de primeira grandeza. Tão importante que o Duque de Saldanha (um dos homens mais poderosos do seu tempo) pretendia casar o seu filho com a menina Maria d`Assunção. Após recusa de D. Antónia, o Duque, habituado a não ser contrariado, manda os seus homens raptar a menina de apenas 12 anos. Ao saber da estratégia do Duque fogem para Espanha e depois para Inglaterra onde se refugiam. Na sua ausência seria Joaquim Monteiro Maia, seu colaborador, que tomaria conta do negócio. Em 12 de Maio de 1861, quando descia o rio na zona do Cachão da Valeira e após naufrágio do barco onde seguia, assiste à morte do seu amigo o Barão de Forrester. O ano de 1868 foi um ano excelente, as qualidades de vinho eram enormes e os viticultores não conseguiam vender o seu vinho. D. Antónia compra enormes quantidades de vinho para ajudar os agricultores na luta contra os baixos preços praticados pela abundância de vinho. Dois anos mais tarde surge a praga do oídio que destrói quase a totalidade dos vinhedos, atirando os Durienses para a miséria. Mulher com uma capacidade enorme de negociar, pôde com alguma facilidade negociar com os ingleses todo o seu vinho que permanecia nos armazéns, contribuindo, assim, para um enriquecimento da casa Ferreira. Em 1880 fica novamente viúva mas este seu descontentamento não a impossibilitou de continuar a obra de benfeitoria que havia começado, com os hospitais de Vila Real, Régua, Moncorvo e Lamego. D. Antónia é sem dúvida uma das maiores, se não a maior, personagem na história da região do Douro e do Vinho do Porto. Faleceu em 1896, aos 85 anos, na Casa das Nogueiras. O Douro perdera a sua Rainha. Actualmente a A. A. Ferreira, considerada uma das mais importantes casas de Vinho do Porto, já não faz parte da Família, tendo sido vendida em 1987 ao grupo Sogrape. Continua, contudo, a entregar anualmente o "Prémio Dona Antónia", destinado a distinguir as mulheres que mais se evidenciaram no mundo empresarial português.
Autor: Abílio Forrester Zamith In Guia do Vinho do Porto, Chaves Ferreira - Publicações, S.A. |
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Joaquim Augusto KOPKE - Barão de Massarelos(1806 - 1895)
Fundada em 1638 por Cristiano Kopke e seu filho Nicolau que tinham vindo para Portugal como representantes da Liga Hanseática, a Casa Kopke é a mais antiga empresa de Vinho do Porto. Durante muitas gerações a Companhia foi dirigida por descendentes dos fundadores, obtendo um excelente reconhecimento para os seus Portos. A família Barros é a actual proprietária da empresa, depois de a ter adquirido em 1953 à família Bohane, que a dirigira durante quase 100 anos, após terem sido os tradicionais importadores para Inglaterra dos vinhos produzidos pelo Kopke. A família Barros tem procurado transmitir à marca Kopke o valor e o prestígio condizentes com a sua longa existência, tendo hoje Kopke uma imagem de qualidade, reconhecida nos principais mercados do Vinho do Porto. Entre os tipos de vinho do Porto que a Casa Kopke comercializa distinguem-se os seus Vintages e Colheitas. De uma vastíssima gama, realçamos; O vintage 1960 considerado por muitos como talvez o melhor Porto do Século XX, do qual mantemos ainda algumas caixas nas nossas caves; O Colheita 1975 surpreende pela qualidade excepcional, macio, com sabor a frutos secos e café, harmonioso e um final longo; O Vintage 1985 é um dos melhores vintages do fim do século passado, com excelente evolução, mantendo um aroma complexo e diversificado, possivelmente ainda não tendo atingido o apogeu. É na Quinta de São Luiz, situada na margem esquerda do Rio Douro, perto do Pinhão, que são produzidos os nossos Vinhos. Considerada uma das mais representativas da região do Douro, é fundamental para a produção do Porto Kopke. O plantio dos vinhedos na Quinta de São Luiz sempre se fez segundo as mais modernas técnicas aplicáveis ao tempo, predominando as castas Touriga Francesa, Touriga Nacional, Tinta Barroca e Tinta Roriz. Em Setembro assiste-se à repetição do ritual centenário das vindimas, segundo a tradição, a par com as mais modernas tecnologias de vinificação. As características agro-climáticas da região e a excelente técnica utilizada tornam inconfundível o Porto Kopke. É pois, certamente uma ocasião única e rara no mundo presidir a uma Empresa que já comemorou 360 Anos de vida. É uma responsabilidade e uma alegria. Ao longo dos séculos, a Casa Kopke tem assistido à história dos homens, das ideias e do Mundo; assistimos ao desenvolvimento do comércio nas suas modernas formas e nós próprios tivemos o nosso pequeno papel nessa evolução. Sentimo-nos não apenas orgulhosos do passado, mas também empenhados na manutenção e desenvolvimento dos produtos com as características de qualidade que granjearam fama. Certamente não teríamos feito este longo percurso sem o apoio, dedicação e carinho de todos os nossos colaboradores, clientes e fornecedores, que nos ajudam a dar a esta empresa o prestígio que tem. |
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Jonh Croft - Casa Croft(1678 - )
A casa CROFT, fundada em 1678, foi um dos primeiros exportadores de Vinho do Porto, e, desde então os seus produtos são reconhecidos pela sua elevada qualidade, A Família Croft, proprietária da firma, alcançou grande prosperidade durante os séculos XVII e XVIII. John Croft, um dos seus associados, escreveu o célebre Tratado dos Vinhos de Portugal que com a sua publicação em 1788, conduziu a família Croft a uma posição de destaque dentro da comunidade produtora e exportadora de Vinho do Porto. Em 1827, Croft & Cª Ltd. tornou-se no quatro maior exportador deste produto. O final do século XIX foi um período de expansão para novos mercados, nomeadamente os Estados Unidos da América, França e Bélgica, embora a grande maioria das exportações, ainda fosse canalizada para a Grã Bretanha. Por esta altura, a casa Croft decidiu adquirir uma das mais belas quintas do vale do Douro - a Quinta da Roêda. Magnificamente situada junto da estrada e do caminho de ferro. A Roêda é considerada uma das melhores propriedades do Douro. Actualmente, é deste local que são transportados para Vila Nova de Gaia os vinhos que dão origem aos melhores da Croft. Durante o século XX, os responsáveis pela Croft & Cª, Ldt. prosseguiram a constante busca pela qualidade e reputação, iniciada pelos seus antecessores. A Casa Croft desempenha hoje em dia um papel fundamental no comércio do Vinho do Porto, tanto a nível nacional, como internacional. |
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José Maria da FONSECA(1804 - 1884)
José Maria da Fonseca nasce na região do Dão, em Nelas, a 31 de Maio de 1804. Depois de se formar bacharel em matemática na Universidade de Coimbra, estabelece-se em Vila Nogueira de Azeitão onde funda a empresa com o seu nome em 1834. Este é o período que vai desde a fundação da empresa até à morte de José Maria da Fonseca em 1884. Foi um período fortemente marcado pelo carácter de José Maria da Fonseca, cuja formação intelectual e espírito inovador permitiram que introduzisse na indústria do vinho aspectos tão essenciais como a introdução do arado ou a comercialização do vinho em garrafas. Outro aspecto pioneiro foi a criação de marcas: Moscatel de Setúbal (1849), Periquita (1850) e Palmela Superior (1866). Os resultados não se fizeram esperar e, para além do aumento das vendas e expansão das exportações, o reconhecimento da modernidade, asseio e eficiência "das instalações vinárias do senhor Fonseca" foram largamente comentados e elogiados, de tal modo que em 1857 o rei D. Pedro V lhe conferiu a Ordem da Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito. Período marcado pela expansão das vendas para o mercado brasileiro, que se tornou o principal destino dos vinhos da José Maria da Fonseca, tendo chegado mesmo a ter uma delegação no Rio de Janeiro. Este aumento da procura levou à necessidade de compra de vinhas, não só na região de Azeitão (Quinta de Camarate), como noutras regiões (Vinhas Viúva Gomes em Colares). No final dos anos 20, a recessão económica mundial e o período de instabilidade vivido no Brasil revelaram-se desastrosos para a José Maria da Fonseca, dada a forte dependência que existia relativamente a este mercado. Para resolver a complicada situação económica, a empresa teve mesmo que vender algum do seu património (como foi o caso das Vinhas Viúva Gomes, na região de Colares). Ciclo marcado pelo génio de um grande enólogo – António Porto Soares Franco – diplomado em Montpellier e criador dos roses Faísca (1937) e Lancers (1944). Este ciclo foi marcado pela recuperação económica e comercial da empresa. O Faísca era um sucesso no mercado interno e as vendas de Lancers nos EUA não paravam de crescer. O Lancers foi resultado da visita de um americano - Henry Behar - a Azeitão ainda antes do final da guerra. Ele procurava um vinho rosé que fosse fácil de beber, que cativasse o consumidor americano, ainda desconhecedor de vinho, e cuja embalagem fosse facilmente identificável. Os resultados foram tais que no final dos anos 60, vendiam-se nos EUA um milhão de caixas de Lancers. A estratégia comercial nesta fase foi assim construída e consolidada à volta de um produto líder - Lancers - e de um mercado - EUA - que não só salvou a empresa da delicada situação financeira herdada do período anterior, mas também serviu de suporte financeiro para a criação de novos vinhos e marcas. A introdução do primeiro vinho branco de grande sucesso no mercado nacional surge em 1945 com o Branco Seco Especial (BSE) e, uma década mais tarde, em 1959, é lançada a marca Terras Altas com vinhos do Dão. Os vinhos Pasmados, inicialmente conhecidos como Branco Velho e Tinto Velho, adquirem a sua identidade própria em 1959. Neste período é criada uma empresa de distribuição de vinhos - a Sileno - e é feita uma joint-venture com a americana Heublein para a produção do Lancers - sendo criada a J. M. da Fonseca Internacional Vinhos. No início dos anos 70 a José Maria da Fonseca vendia para mais de oitenta países. Este período começa no início dos anos 80, com a venda à Heublein da sua parte na J. M. da Fonseca Internacional Vinhos. Os resultados da venda foram aplicados na aquisição de vinha e modernização de todo o processo de vinificação, estágio e envelhecimento dos vinhos. Prova disso foram as compras da Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes (em Reguengos) e da Vinha Grande de Algeruz (em Setúbal). É também neste período que a sexta geração da família assume o comando da empresa. Esta geração é representada por António Soares Franco, presidente da companhia, e o seu irmão Domingos Soares Franco, vice-presidente e responsável pela enologia. Já em 1996, a José Maria da Fonseca volta a adquirir à IDV (antes Heublein) a marca Lancers. Outro grande investimento foi a construção de um dos mais modernos centros de vinificação da Europa que, com uma capacidade para vinificar 6,5 milhões de litros de vinho, permite dar uma melhor resposta às crescentes exigências de um mercado cada vez mais competitivo. Paralelamente a tudo isto, a José Maria da Fonseca foi a primeira empresa de vinhos de mesa portuguesa a obter a exigente Certificação da Qualidade ISO 9002. |

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